Ao soletrar devagar o nunca mais.
sábado, 7 de junho de 2014
terça-feira, 3 de junho de 2014
Histórias de um vagão
Domingo, entro no metrô e tem um cara com uma mochila e um violão. Com um timbre bonito, canta sobre caetanear o que há de bom.
Ao final, o vagão inteiro aplaude. Muito.
Ele começa a falar. Não rodou o chapéu, não pediu contribuição pelo seu trabalho. Falou apenas de amor.
À vida. Ao que se faz.
De repente, olhando bem dentro dos meus olhos, como se talvez advinhasse que aquelas palavras poderiam ser importantes para mim, disse:
-Vai ser feliz.
Porque ele, estava lá, tocando seu violão, no metrô, apenas para ser feliz.
Ele se calou. E novamente, veio o aplauso - que me trouxe uma vontade imensa de abraçar o rapaz.
E agradecer.
******
Já dizia o velho ditado que a minha liberdade começa onde termina a sua. Ou vice-versa.
Mas, a verdade é que vivemos na constante invasão do espaço alheio. No trabalho, na rua, no virtual: uma sucessão de querer sempre um pouquinho mais para si. Semana passada peguei o metrô. Quase vazio, afinal era domingo a tarde.
Do meu lado, um banco vago.
Próxima estação Praça onze, desembarque pelo lado direito. E foi pelo mesmo lado direito que um grupo de adolescentes adentrou ao vagão. Nao sem antes esmurrar a porta, enquanto esperavam que ela se abrisse.
Eram 7 ou 8, pareciam um batalhão.
Correram, ocuparam lugares vagos, inclusive o do meu lado. Alguns ficaram em pé. Enquanto conversavam aos berros sobre a vida sexual - frustrada - de um dos moleques, um se dependurava na barra fixa ao teto, outro corria de um lado para o outro do vagão.
Aumentei o som do mp3 a quase estourar os meus tímpanos. Alegria era o que faltava em mim, uma esperança vaga que não encontrei. Mas, não adiantou. Tive que escutar sobre a bunda alheia e insatisfações.
Tive que ver um deles se estabacar no chão, tive que aguentar outro gritando no meu ouvido para falar com o fulaninho do outro lado do trem.
Pode parecer frescura, outros diriam que eu deveria relevar, afinal, são adolescentes numa tarde sol. Terceiros ainda destacariam o quanto sou ranzinza.
(E sou, não nego).
Não nego também o direito ao frescor da juventude, mas gostaria de nao me sentir invadida, gostaria de ter um domingo de paz. Acontece que eu sou uma pessoa que gosta do silêncio.
Ensaiei um discurso. Repeti as palavras umas três vezes, mentalmente.
Desisti.
Não adiantaria. Talvez apenas a minha cabeça latejasse mais entre as estações que me separavam do destino. Aguentei firme, apenas me levantei e rumei à porta.
Contei até 240 quando a gravação do metrô anunciou Cardeal arco verde, desembarque pelo lado direito. O mesmo número de vezes que pensei esganar a cada um, com as minhas próprias mãos.
Ao final, o vagão inteiro aplaude. Muito.
Ele começa a falar. Não rodou o chapéu, não pediu contribuição pelo seu trabalho. Falou apenas de amor.
À vida. Ao que se faz.
De repente, olhando bem dentro dos meus olhos, como se talvez advinhasse que aquelas palavras poderiam ser importantes para mim, disse:
-Vai ser feliz.
Porque ele, estava lá, tocando seu violão, no metrô, apenas para ser feliz.
Ele se calou. E novamente, veio o aplauso - que me trouxe uma vontade imensa de abraçar o rapaz.
E agradecer.
******
Já dizia o velho ditado que a minha liberdade começa onde termina a sua. Ou vice-versa.
Mas, a verdade é que vivemos na constante invasão do espaço alheio. No trabalho, na rua, no virtual: uma sucessão de querer sempre um pouquinho mais para si. Semana passada peguei o metrô. Quase vazio, afinal era domingo a tarde.
Do meu lado, um banco vago.
Próxima estação Praça onze, desembarque pelo lado direito. E foi pelo mesmo lado direito que um grupo de adolescentes adentrou ao vagão. Nao sem antes esmurrar a porta, enquanto esperavam que ela se abrisse.
Eram 7 ou 8, pareciam um batalhão.
Correram, ocuparam lugares vagos, inclusive o do meu lado. Alguns ficaram em pé. Enquanto conversavam aos berros sobre a vida sexual - frustrada - de um dos moleques, um se dependurava na barra fixa ao teto, outro corria de um lado para o outro do vagão.
Aumentei o som do mp3 a quase estourar os meus tímpanos. Alegria era o que faltava em mim, uma esperança vaga que não encontrei. Mas, não adiantou. Tive que escutar sobre a bunda alheia e insatisfações.
Tive que ver um deles se estabacar no chão, tive que aguentar outro gritando no meu ouvido para falar com o fulaninho do outro lado do trem.
Pode parecer frescura, outros diriam que eu deveria relevar, afinal, são adolescentes numa tarde sol. Terceiros ainda destacariam o quanto sou ranzinza.
(E sou, não nego).
Não nego também o direito ao frescor da juventude, mas gostaria de nao me sentir invadida, gostaria de ter um domingo de paz. Acontece que eu sou uma pessoa que gosta do silêncio.
Ensaiei um discurso. Repeti as palavras umas três vezes, mentalmente.
Desisti.
Não adiantaria. Talvez apenas a minha cabeça latejasse mais entre as estações que me separavam do destino. Aguentei firme, apenas me levantei e rumei à porta.
Contei até 240 quando a gravação do metrô anunciou Cardeal arco verde, desembarque pelo lado direito. O mesmo número de vezes que pensei esganar a cada um, com as minhas próprias mãos.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Diga aí...
...quanta alegria cabe em uma única vida?
(e quanto da vida deve caber em uma única dor?)
...qual a distância segura que os pés devem ficar do chão?
(e quanto da vida deve caber em uma única dor?)
...qual a distância segura que os pés devem ficar do chão?
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Sobre as pequenas alegrias
Sentada em um dos bancos da orla de Copacabana, calço meu patins. Divido o espaço com um senhor que fala ao telefone, sobre um assunto qualquer. Ao desligar, abre um sorriso e diz:
-Bom dia, minha filha!
Respondo ao bom dia e retribuo ao sorriso. Ele me pergunta do patins, fala que é uma boa atividade física e brinca:
-Haja equilíbrio!
Então ele me conta que já foi triatleta:
-De ponta, minha filha! Hoje, aos 84 anos, me contento com uma corridinha na praia.
Ele me fala sobre a sua esposa, que faleceu em 1996, das tardes de conversa com as senhoras no Parque Garota de Ipanema e demostra uma alegria de viver que não cabe em si.
Como um avô, pergunta a minha profissão e me pede para nunca parar de estudar. Mais do que isso: pede para que eu não faça nada senão por amor.
Nesta hora, me estende a mão, agradece a conversa e diz que vai correr.
-Porque aposentado é quem fica em casa, vendo televisão.
Assim, me deseja boa sorte e muitas alegrias.
- À nós, respondo enquanto aperto a sua mão.
E ele, já ensaiando alguns passos, diz:
-Isso mesmo, a felicidade foi feita para ser dividida – e seguiu seu caminho, me deixando com um coração mais leve e um sorriso nos lábios.
-Bom dia, minha filha!
Respondo ao bom dia e retribuo ao sorriso. Ele me pergunta do patins, fala que é uma boa atividade física e brinca:
-Haja equilíbrio!
Então ele me conta que já foi triatleta:
-De ponta, minha filha! Hoje, aos 84 anos, me contento com uma corridinha na praia.
Ele me fala sobre a sua esposa, que faleceu em 1996, das tardes de conversa com as senhoras no Parque Garota de Ipanema e demostra uma alegria de viver que não cabe em si.
Como um avô, pergunta a minha profissão e me pede para nunca parar de estudar. Mais do que isso: pede para que eu não faça nada senão por amor.
Nesta hora, me estende a mão, agradece a conversa e diz que vai correr.
-Porque aposentado é quem fica em casa, vendo televisão.
Assim, me deseja boa sorte e muitas alegrias.
- À nós, respondo enquanto aperto a sua mão.
E ele, já ensaiando alguns passos, diz:
-Isso mesmo, a felicidade foi feita para ser dividida – e seguiu seu caminho, me deixando com um coração mais leve e um sorriso nos lábios.
Entre o ir e o vir
Os olhos se perdem na espera. No telão, voos anunciam chegadas, partidas e atrasos. Mãos nos bolsos, braços cruzados, olhos no relógio e agonia no acaso.
Aeroporto é sempre igual: o choro de quem vai e a alma fica. Ansiedade de quem espera parte da vida de volta. Histórias de recomeço e saudade. Tentativas.
Lanchonetes, lojas de roupas, cosméticos e lembranças de viagem fazem parte do cenário. Afinal, sempre fica um presente para a última hora. Enquanto espero, passo os olhos pelas vitrines, me assusto: não consigo me recordar de um aeroporto que tenha uma simples banca de flores.
Um lugar, dado às delicadezas das partidas e chegadas devia, obrigatoriamente, disponibilizar a leveza de um botão de rosa. Penso o quanto seria mais bonito se, ao invés de cultivar as mãos ansiosas nos bolsos, elas pudessem segurar as boas-vindas sinceras de quem se lembrou da gentileza de uma flor?
Esta seria uma forma de potencializar a alegria daqueles olhos que saem do saguão de desembarque, cansados. Uma forma de reafirmar que aquele encontro foi muito aguardado. As flores não substituem os abraços apertados e o sorriso involuntário de todas as chegadas. Elas não são fundamentais, eu sei.
Porém, a minha luta é por manter sempre resguardada a possibilidade da gentileza.
Aeroporto é sempre igual: o choro de quem vai e a alma fica. Ansiedade de quem espera parte da vida de volta. Histórias de recomeço e saudade. Tentativas.
Lanchonetes, lojas de roupas, cosméticos e lembranças de viagem fazem parte do cenário. Afinal, sempre fica um presente para a última hora. Enquanto espero, passo os olhos pelas vitrines, me assusto: não consigo me recordar de um aeroporto que tenha uma simples banca de flores.
Um lugar, dado às delicadezas das partidas e chegadas devia, obrigatoriamente, disponibilizar a leveza de um botão de rosa. Penso o quanto seria mais bonito se, ao invés de cultivar as mãos ansiosas nos bolsos, elas pudessem segurar as boas-vindas sinceras de quem se lembrou da gentileza de uma flor?
Esta seria uma forma de potencializar a alegria daqueles olhos que saem do saguão de desembarque, cansados. Uma forma de reafirmar que aquele encontro foi muito aguardado. As flores não substituem os abraços apertados e o sorriso involuntário de todas as chegadas. Elas não são fundamentais, eu sei.
Porém, a minha luta é por manter sempre resguardada a possibilidade da gentileza.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Entre nuvens e cafés
Destes dias nublados, sempre sobra um resto de chuva na janela para anunciar o mundo lá fora.
São tristezas mais aparentes e uma vontade que o mundo caiba debaixo do cobertor. Nas ruas, as pessoas embaladas em cachecóis e algumas camadas de casaco não perdem a pressa. O passo é rápido e os olhos também não se desfazem da mania de abraçar o chão.
Dias assim, pedem café quente e filme repetido na televisão. Mas a rotina continua apostando corrida, pintando de cinza o que também pode ser bonito.
Destes dias nublados fica sempre uma saudade descontinuada de tudo o que não vivi, das possibilidades que ignorei, das escolhas que não fiz. Mas é também em meio a esta neblina cinza que paira a cidade que não me arrependo de ter chegado até aqui.
São tristezas mais aparentes e uma vontade que o mundo caiba debaixo do cobertor. Nas ruas, as pessoas embaladas em cachecóis e algumas camadas de casaco não perdem a pressa. O passo é rápido e os olhos também não se desfazem da mania de abraçar o chão.
Dias assim, pedem café quente e filme repetido na televisão. Mas a rotina continua apostando corrida, pintando de cinza o que também pode ser bonito.
Destes dias nublados fica sempre uma saudade descontinuada de tudo o que não vivi, das possibilidades que ignorei, das escolhas que não fiz. Mas é também em meio a esta neblina cinza que paira a cidade que não me arrependo de ter chegado até aqui.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
De algum lugar do futuro
Ana, hoje você completa 18 anos. Eu sei, neste momento você acha uma urgência em tudo: conseguir entrar na faculdade, tirar carteira de motorista, conquistar muita coisa. Eu sei que sempre manteve o sonho de ser a dona da história. Mas, em uma tentativa de dar o tombo no futuro, voltei uma década para promover este encontro. Agora, entre o que fui e o que me tornei, não tenho medo em dizer:
-Não envelheça tão rápido.
E não falo de linhas de expressão. Você, aos 28 anos, se sentirá mais bonita que nunca. Trato aqui da leveza que vai perder na próxima década se continuar por esta estrada. Escrevo do futuro apenas pra alertar, pra fazê-la forte.
Não tenha pressa em conquistar. Um lugar no mundo, um amor, uma verdade absoluta (com esta última, nem perca seu tempo, risque do seu caderno pro futuro).
Não se leve tão a sério.
Assuma apenas as responsabilidades que cabem em suas mãos. Esqueça essa coisa de abraçar o mundo, apenas se importe. As pessoas precisam tropeçar em seus próprios pés e você, por favor, entenda isso.
Aceite que às vezes as coisas dão certo, noutras, a nossa mira passa longe. Por isso, perca mais o ar. Mantenha as suas crises de riso.
Nos próximos anos, indague: porque com o tempo, você tenderá a deixar de lado tantas perguntas apenas como forma de não se chatear. Lembre-se que é preciso passo após passo se realmente quiser mudar a paisagem.
Ana, venho pedir para que, nos próximos anos, tenha o pulso firme, mas as mãos leves. Pare de ir até onde o corpo aguenta. Vá apenas até onde a cabeça deixa. Você não precisa dar conta de tudo e não precisa de nada que não queira.
Trago a boa notícia de que, nestes anos todos, você não perdeu a firmeza. Você sabe querer. Mas, peço: não seja tão dura com as suas próprias respostas. Na última década, você foi se tornando quase irredutível. Se permita chorar. Se permita chutar o balde às vezes. Você desaprendeu a recuar e isso, definitivamente, não pode ser bom.
Venho dizer que os anos serão tranquilos, apesar de algumas tempestades e um leve desespero. Mas, por sorte, você não perdeu a capacidade de ver o lado bom de tudo o que não soa tão bem assim.
Por fim, venho implorar para que você seja gentil, Ana. Principalmente com você. A vida está apenas começando.
Não se assombre com os becos e esquinas. Apenas caminhe.
A gente se encontra logo mais.
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