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terça-feira, 3 de junho de 2014

Histórias de um vagão

Domingo, entro no metrô e tem um cara com uma mochila e um violão. Com um timbre bonito, canta sobre caetanear o que há de bom.

Ao final, o vagão inteiro aplaude. Muito.

Ele começa a falar. Não rodou o chapéu, não pediu contribuição pelo seu trabalho. Falou apenas de amor.

À vida. Ao que se faz.

De repente, olhando bem dentro dos meus olhos, como se talvez advinhasse que aquelas palavras poderiam ser importantes para mim, disse:

-Vai ser feliz.

Porque ele, estava lá, tocando seu violão, no metrô, apenas para ser feliz.

Ele se calou. E novamente, veio o aplauso - que me trouxe uma vontade imensa de abraçar o rapaz.

E agradecer.

******

Já dizia o velho ditado que a minha liberdade começa onde termina a sua. Ou vice-versa.

Mas, a verdade é que vivemos na constante invasão do espaço alheio. No trabalho, na rua, no virtual: uma sucessão de querer sempre um pouquinho mais para si. Semana passada peguei o metrô. Quase vazio, afinal era domingo a tarde.

Do meu lado, um banco vago.

Próxima estação Praça onze, desembarque pelo lado direito. E foi pelo mesmo lado direito que um grupo de adolescentes adentrou ao vagão. Nao sem antes esmurrar a porta, enquanto esperavam que ela se abrisse.

Eram 7 ou 8, pareciam um batalhão.

Correram, ocuparam lugares vagos, inclusive o do meu lado. Alguns ficaram em pé. Enquanto conversavam aos berros sobre a vida sexual - frustrada - de um dos moleques, um se dependurava na barra fixa ao teto, outro corria de um lado para o outro do vagão.

Aumentei o som do mp3 a quase estourar os meus tímpanos. Alegria era o que faltava em mim, uma esperança vaga que não encontrei. Mas, não adiantou. Tive que escutar sobre a bunda alheia e insatisfações.

Tive que ver um deles se estabacar no chão, tive que aguentar outro gritando no meu ouvido para falar com o fulaninho do outro lado do trem.

Pode parecer frescura, outros diriam que eu deveria relevar, afinal, são adolescentes numa tarde sol. Terceiros ainda destacariam o quanto sou ranzinza.

(E sou, não nego).

Não nego também o direito ao frescor da juventude, mas gostaria de nao me sentir invadida, gostaria de ter um domingo de paz. Acontece que eu sou uma pessoa que gosta do silêncio.

Ensaiei um discurso. Repeti as palavras umas três vezes, mentalmente.

Desisti.

Não adiantaria. Talvez apenas a minha cabeça latejasse mais entre as estações que me separavam do destino. Aguentei firme, apenas me levantei e rumei à porta.

Contei até 240 quando a gravação do metrô anunciou Cardeal arco verde, desembarque pelo lado direito. O mesmo número de vezes que pensei esganar a cada um, com as minhas próprias mãos.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre as pequenas alegrias

Sentada em um dos bancos da orla de Copacabana, calço meu patins. Divido o espaço com um senhor que fala ao telefone, sobre um assunto qualquer. Ao desligar, abre um sorriso e diz:

-Bom dia, minha filha!

Respondo ao bom dia e retribuo ao sorriso. Ele me pergunta do patins, fala que é uma boa atividade física e brinca:

-Haja equilíbrio!

Então ele me conta que já foi triatleta:

-De ponta, minha filha! Hoje, aos 84 anos, me contento com uma corridinha na praia.

Ele me fala sobre a sua esposa, que faleceu em 1996, das tardes de conversa com as senhoras no Parque Garota de Ipanema e demostra uma alegria de viver que não cabe em si.

Como um avô, pergunta a minha profissão e me pede para nunca parar de estudar. Mais do que isso: pede para que eu não faça nada senão por amor.

Nesta hora, me estende a mão, agradece a conversa e diz que vai correr.

-Porque aposentado é quem fica em casa, vendo televisão.

Assim, me deseja boa sorte e muitas alegrias.

- À nós, respondo enquanto aperto a sua mão.

E ele, já ensaiando alguns passos, diz:

-Isso mesmo, a felicidade foi feita para ser dividida – e seguiu seu caminho, me deixando com um coração mais leve e um sorriso nos lábios.

Entre o ir e o vir

Os olhos se perdem na espera. No telão, voos anunciam chegadas, partidas e atrasos. Mãos nos bolsos, braços cruzados, olhos no relógio e agonia no acaso.

Aeroporto é sempre igual: o choro de quem vai e a alma fica. Ansiedade de quem espera parte da vida de volta. Histórias de recomeço e saudade. Tentativas.

Lanchonetes, lojas de roupas, cosméticos e lembranças de viagem fazem parte do cenário. Afinal, sempre fica um presente para a última hora. Enquanto espero, passo os olhos pelas vitrines, me assusto: não consigo me recordar de um aeroporto que tenha uma simples banca de flores.

Um lugar, dado às delicadezas das partidas e chegadas devia, obrigatoriamente, disponibilizar a leveza de um botão de rosa. Penso o quanto seria mais bonito se, ao invés de cultivar as mãos ansiosas nos bolsos, elas pudessem segurar as boas-vindas sinceras de quem se lembrou da gentileza de uma flor?

Esta seria uma forma de potencializar a alegria daqueles olhos que saem do saguão de desembarque, cansados. Uma forma de reafirmar que aquele encontro foi muito aguardado. As flores não substituem os abraços apertados e o sorriso involuntário de todas as chegadas. Elas não são fundamentais, eu sei.

Porém, a minha luta é por manter sempre resguardada a possibilidade da gentileza.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Do lado de lá

Meus olhos se debruçam na janela do ônibus. Uma vida inteira lá fora. Depressa, um rapaz atravessa
a rua, ziguezagueando entre os carros. Desvio o olhar e no outro canto me deparo com uma pressa que as pernas não alcançam: é a bengala que dita o ritmo dos passos, que de tão lentos, riscam a calçada.

Pra um, o importante é chegar. Pro outro, é o passo que não pode cessar e, assim, o mundo vai ditando
o contraste.

Da janela vejo o céu, um tanto cinza. Do lado de dentro, alguns ouvem música, outros cochilam e muitos, muitos olhos vidrados no nada. Não sei se é sono ou uma extensa ausência de sentido na rotina:
eles só sabem que precisam ir.

Será que precisam mesmo?

Quanto custa mudar a direção da vela? Será que o vento colabora? Se não, ainda tenho os remos. Há muito desisti de me entregar à correnteza. Ser feliz parece óbvio, mas muitas vezes não é. Bebemos a água da rotina e deixamos o sonho para amanhã.

Acordamos, pegamos o ônibus, trabalho, academia, cama. E, assim, já foi o ano e permanecemos no mesmo lugar, só que em outro tempo. Até quando teremos tempo? O amanhã é urgente. O sonho é urgente.

Pulo fora deste ônibus. Decidi ir ao encontro do destino.

domingo, 8 de julho de 2012

Com as escolhas nas mãos


Acordar cedo, tarde, não acordar. Seguir em frente, parar, alterar a rota. Aprender a dançar, a cair e, quem sabe, até rodopiar. Pedir as contas do que não tem brilho, distribuir possibilidades a cada esquina.

Desistir, começar, recomeçar pelo meio – ou mesmo por algum final. Afinal, é a gente quem escolhe entre o talvez e o sim e determina o peso do não.

São nossos pés que ditam o ritmo, são nossas mãos que apontam a direção. Sorrir não é mostrar os dentes: Existir não carrega o peso e a alegria do viver.

A gente é que decide a verdade, cada um pinta a sua esperança da cor que lhe convêm - e não me venha dizer do contrário, confundir ou gritar sua razão.

Entenda que abraçar o vento traz liberdade, mas não aponta a direção, porque a gente é quem sabe a hora de içar a vela, mudar o rumo ou perder o prumo.

A gente é quem sabe a hora de parar, a necessidade do grito e a contramão. Porque, lá no fundo, a gente é quem sabe o lado mais fraco da corda e, calar, tantas vezes, vale mais que a potência da voz.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mais um ano se despede

Da janela do trabalho, vejo a chuva de papel picado anunciando o final de mais um ano. É o momento de triturar aquilo que não mais serve e defenestrar as tristezas, na expectativa de criar novas esperanças. Na avaliação, não há motivos para reclamar: Foram vitórias calculadas e tantas outras não previstas. Também há de se comemorar cada derrota (mas estas não precisam não precisam de cartazes, pois devem ser lembradas em silêncio, garantindo o acerto dos próximos passos).

Dentre os resultados deste ano, mais importante do que comprar o apartamento próprio, voltar a estudar e atingir estabilidade financeira, está a manutenção das conquistas menos palpáveis e, até mesmo, mais antigas. Porque sentar em um bar ou restaurante sem se preocupar tanto com o total da conta é bom, mas o melhor mesmo é ter amigos verdadeiros para dividir a mesa. Estejam eles no Rio de Janeiro, no planalto central ou em qualquer universo paralelo, o meu grande feito tem se repetido, ano após ano, ao garantir a permanência das grandes amizades, apesar de todas as mudanças.

Outro dia, um amigo comentou que a nossa amizade não era mais uma questão de anos de convivência, já havia se tornado uma questão de vida. E ele está certo. Aprendemos a dividir os dias com pessoas que estão longe, ou mesmo virando a esquina. Elas se fazem importantes pelo volume das risadas e pelo ombro no desespero. São elas que me fazem seguir em frente, para conquistar senão o mundo, o direito de ser feliz com as pequenas coisas cotidianas. É uma questão de vida porque aprendemos a comemorar lado a lado, a confiar, a falar sem medo.

Ter grandes amigos é o resultado de uma vida inteira. E eu sou grata por isso. O gastar dos anos já não mais importa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Maestro

Em um final de semana, destes de sol, que nos convida para uma caminhada descompromissada, as pessoas correm entre lojas abertas, carros que furam o sinal e uma arquitetura que se esconde atrás dos letreiros luminosos.

Entre espaços onde haviam prédios que foram derrubados por uma dita modernidade, deparo-me com um morador de rua, sentado sobre uma mala.

Vidrado, concentrava os olhos no aparelho de televisão disponível em uma banca de revistas.

Na tela, Pavarotti.

Ele não estava sob uma marquise, nem esquecido em um canto: Fez do largo da Carioca sua sala de estar. Tomado pela música, ignorava o mundo, talvez em uma inversão de papeis.

Enquanto as pessoas corriam, fizera a opção por sequer piscar. Como se na música estivesse todas as respostas das dores cotidianas.

Sentado, rodopiava.

Dançava parado ao som de uma música triste. Parecia alegre. Era ele a única verdade em um mundo inconveniente.Talvez fosse ele, o único que fizera as escolhas do saber viver.
 
No silêncio, aprendeu a orquestrar o caos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pelas mãos



'Ultimamente tem passado muitos anos', e eu não vi o mês de março que acabou. As chuvas de verão já foram, mas o outono ainda ensaia os últimos passos da estação passada, com céu limpo e temperatura alta. Eu não tenho visto o correr das horas de cada minuto.

O tempo voa pra consumir uma espera interminável, mas também fica para dizer das coisas boas do esperar. Ainda assim, tenho visto os amigos, recebido notícias com tanta velocidade que me perco nas minhas faltas e respostas.

Na pressa, é preciso saber do sim e do não. Saber a hora de parar e de sorrir de volta. Procurar formas, realizar-se. Ultimamente, eu não tenho visto o tempo. Me perco entre o domingo e a sexta-feira.  Porém, mais triste que a pressa, é o não saber ficar. Entre um lugar e outro, me fixei. Raízes suspensas para ter o direito de recomeçar. (E respirar. E saber o meu).

 A vida é feita assim: de escolhas automáticas, de tristezas passageiras e daquilo de bom existente em um dia cheio: um almoço, uma boa companhia, um conselho ou uma risada. Os anos passam e me carregam pelas mãos.

Em contrapartida, me deixam histórias, pessoas, vontades. Os anos me fazem livre para ser  diferente daquilo do que fui e serei. Os anos me dão espaço para ser o hoje. O tempo não traz consigo a conformidade com a paisagem, mas sim  uma alegria real de se ter o controle e um amanhã baseado em toda leveza existente na loucura de cada amanhecer.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A casa

Respirou fundo e abriu a porta. Aproveitando a fresta de luz, constatou: As falhas na parede apontavam a continuidade de um caminho que já desgastado. Parecia que ela abria sulcos para as promessas passarem. Quantas promessas! Uma vida inteira baseada no não saber, na falta de motivos ou coragem de continuar.

O rachado surgia no ponto baixo da parede, próximo ao azulejo do chão e subia vagarosamente, formando rios, galhos, continuações de uma história perdida entre as paredes daquela casa. Há tanto não entrava ali.

A poeira tomou conta das poltronas cobertas com lençóis velhos. As coisas foram abandonadas para que a vida pudesse seguir. Cada passo na casa era um pedaço de uma história esquecida não só pelo querer esquecer, mas também pela a memória que brinca traiçoeira e apaga os detalhes. A dor já não parecia estar ali.

Acendeu a única lâmpada que ainda funcionava na casa, viu o que o tempo manteve tudo intacto, translúcido à memória e pálido em seu lugar de origem. Tudo suspenso esperando a hora de recomeçar o que já não tinha começo, nem meio.

Descobriu os móveis da sala, limpou com a manga da camisa o pó acumulado no porta-retratos. Um sorriso tão largo na fotografia já levemente amarelada. Definitivamente foi feliz ali.

Se viu menino correndo entre as pernas dos adultos, adolescente se perdendo nas pernas da amada. Viu-se homem perdido, sem rumo, nem nada.  Ali, estava a sua vida, escondida debaixo de cada lençol.

Puxava o pano, caia poeira da alma. A paina da memória à contraluz. Passou a noite ali, fez festa para espantar a nostalgia, inventou os caminhos, reviveu para que fosse permitido voltar a viver em paz com o que sempre foi.

(Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2010, publicado originalmente no mocasdiferentes.wordpress.com)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Canção para dias mornos

Lá fora uma chuva fina. Daquelas que, aos poucos, desenterram os mortos. Uma chuva pra tirar a pressa, trazer qualquer nostalgia barata de um tempo que não foi tão bom.  Fico a contar as janelas, as luzes que se apagam, a colecionar a vida que circula por aí.

Eu me encontro pelas esquinas. Perco-me nesta música surda, no caos ordenado, nas cartas marcadas. Mas deixa a música tocar, tomar conta do mundo. Uma hora o caos acaba e a alma dança sem rótulos.

Essa chuva que cultiva o que não tenho, deixa o sorriso suspenso e a lágrima escondida. Ainda assim, eu deixo a tristeza pra mais tarde, para o nunca - ou mesmo ao travesseiro. Construo o que não tenho; o amanhã é logo hoje, não é? 

Deixa a música acabar, deixa a vida ir se levando, mesmo com pés trôpegos, mesmo que apertada, mesmo que... Deixa a vida ser mais leve, mais vida e acaso. Saiba que há momentos claros,  mesmo em dias mornos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sístoles e diástoles

Definitivamente não gosto de orelhas de livro e sinopses de filmes. Uma história precisa ser descoberta aos poucos, em cada construção de cena, em cada frase lapidada. As orelhas de livro são divididas em dois grupos: as que expõem por esconder demais e as  que  tiram a graça de qualquer leitura.

Talvez ignore os resumos por gostar de histórias por inteiro, de vidas inteiras procurando as perguntas certas, evitando as respostas prontas. Gosto do caminho que se faz com o passo, gosto de conclusões próprias, mesmo que tardias.

Um livro é uma vida - e vidas incríveis perdem a graça quando resumidas. A leveza cotidiana não cabe na sinopse. O olhar distraído pela arquitetura da velha cidade, o sorriso bobo da criança que percebe o cão, não cabem nas poucas linhas de qualquer orelha de uma intensa vida.Talvez por isso, tenha tantos problemas com resumos.

Não me peça para contar-lhe a história de um filme. Eu lhe direi das cores, dos sorrisos, de qualquer leveza, porque são nos detalhes que se entende um discurso e entender, meu deus, são tantas verdades...No máximo, eu lhe direi sobre tantas coisas, mas não serei clara, tampouco objetiva. Eu ignoro as sinopses, prefiro descobrir a vida ao acompanhar as minhas sístoles e diástoles.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Da eternidade do efêmero

Quisera congelar aquele momento. Talvez emoldurá-lo, mas não para contar vantagem e sim para poder admirá-lo, todos os dias, sem folhear a memória.

Até mesmo porque a memória é falha e sempre reconta a história de uma forma diferente. Emoldurá-lo para que talvez se lembre, para sempre, de cada sensação, de cada pensamento que entrava em choque, perdido em dúvidas e ansiedade.

Tudo porque dentro de um instante há milhares de instantes que percorrem e perguntam onde encontrar o momento certo, preso a tantos presentes distintos e amenos.

Quisera guardar aquele e todos os fatos existentes em tempos paralelos num tempo absoluto. Mas o destino, brincalhão, preferiu oferecer momentos contínuos de felicidade, evitando prender o olhar a um momento: Ofereceu-lhe a eternidade de tudo o que é efêmero.

Daí em diante, a vida pôde ser um filme sem cortes, de sorrisos largos, de dias bons, mesmo em momentos ruins. Daí em diante, se pôde entender que não é preciso emoldurar a alegria, basta simplesmente estendê-la a mão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Vida: modo de fazer

Eu gosto da vida que dobra a esquina e das estátuas esquecidas. Meço perdas e ganhos no tamanho de minha loucura. Tenho mente aberta e mãos lúcidas. Pouco espaço para muita alucinação. Não me digam que é hora de parar, que o tempo acabou ou que não há mais destino. Pouco importa se é mesmo para lá o caminho. Eu faço meu Norte.

Eu vivo pra fazer meus acasos, coordenar o sorriso e a intensidade do necessário. Faço meus motivos e minhas verdades. Eu vivo pra trombar com seu futuro na minha esquina. O resto é invenção. Não há circo montado, apenas a leveza e braços abertos pra qualquer olhar atento.

Espalho fotografias pela casa para esquecer da solidão. Eu danço sem música, esqueço o compasso e canto fora do tom. Não me importam os motivos, nem as opiniões. Eu traço meu destino, esqueço as linhas das mãos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pra não me perder ao final da tarde

Minha casa é o mundo: nem lá, nem cá. Um lugar suspenso, perdido e encontrado. Meu lugar é saudade - daquela cheia de motivos e nomes.

Eu colecionava verdades em potes coloridos, hoje as cores tomam o ar e se fazem na ausência ou junção.

Minha casa é a ponte, qualquer elo ou verdade. Não há janelas, nem portas, apenas destinos cruzados em um lugar chamado “não sei onde”.

Minha casa é a chuva, o vento e o que vier. É a verdade, mesmo que crua ou torta. Eu costumava ter mais certezas. Hoje restaram as dúvidas e toda a pontuação.

Eu costumava ver mais talvez em uma felicidade descabida.  Hoje, qualquer alegria me serve, qualquer tamanho de sonho bom.

 Aprendi a viver pelos motivos mais justos ou certos. Minha casa é suspensa, minha alma canção. Se quiser companhia, me estenda o abraço, me tenha nas mãos.

Se estiver ao meu lado, me diga a verdade, me olhe nos olhos. Eu prometo mostrar o mundo escondido em um assobio distraído de realidade.

Aí, então, eu contarei o nome da rua, o número suspenso da casa e terei nos dias qualquer motivo para não cultivar felicidades ao avesso.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Acenando um tchau

Fico me perguntando por que há tanta gente infeliz neste mundo. Ser triste parece modismo, ser problemático, status. Há sempre um defeito, uma imperfeição. Há sempre uma vírgula fora do lugar, um desespero, um show montado.

As pessoas exigem demais do mundo, delas mesmas, perdem a graça e o sorriso. Elas se fazem infelizes: se irritam com o trânsito, com a demora, com a espera e a saudade. Abrem mão para não sentir falta e se sentem infelizes justamente pela ausência que causaram.

Se faz sol, está muito quente. Se chove, estraga o passeio. As pessoas querem sempre vidas nubladas. São infelizes porque confundem o intenso com o capricho. São infelizes porque escolheram viver assim: na correria, na falta de olhar, no imediato. Gostariam que o mundo funcionasse por meio de lâmpadas mágicas: todo desejo atendido a um estalar de dedos. Gostariam de ser mais magras, altas, ricas ou com o nariz arrebitado.

Mas não, a vida não se realiza com desejos atendidos de imediato e, por isso, as pessoas se ocupam cultivando a infelicidade e não percebem a alegria, na vidraça, acenando um tchau.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre listas de ano novo (ou A felicidade não precisa de burocracia)

Abandonei as resoluções de 'ano seguinte' há tempos. Deixei de lado os planos que não vou cumprir. Cansei de me prometer academia, menos chocolate e diminuir a compulsão por comprar mais livros do que eu consigo ler.

Decidi ser feliz de forma simples, sem ter itens para checar ou caminhos obrigatórios. Não faço listas para não me reduzir e para não ter a quem (ou a o quê) culpar quando as coisas derem errado.

Tenho metas e estratégias, mas não listas. Prefiro não contar até dez. Enumerar resoluções é começar um regime toda segunda-feira para abandoná-lo vinte e quatro horas depois.

Em meus dias, consertei o que deu errado no momento da perda. Fazer listas é adiar as respostas, é jogar pra frente o que temos medo de resolver - e pelo medo, esquecemos as listas no fundo das gavetas.

Não quero adiar nada, não preciso de planos pra mais tarde. Os meus pés ditam o limite dos passos. A felicidade não precisa de burocracia. O caminho não precisa de listas quando o caminhar é prioridade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Samba esquecido

Como é mesmo que a canção aquela dizia? Perdi as palavras exatas, porém tenho ainda os pés meio tontos, o coração trôpego, um frio entre os dedos.

O que aconteceu com os dias? Sobrou o olhar carregado, o castanho nublado, o soluço nas mãos. Sobrou um resto de cor, um resto de tudo, um pedaço de mim. Sobrou um retalho, um retrato, seu rosto enquadrado, as migalhas dos dois. Sobrou um livro emprestado, uma canção esquecida e algumas juras já gastas. Ficou o que eu me esqueci de dizer e o que ninguém perguntou: Aquilo que a gente não quis ou deixou pra depois.

Como é mesmo aquela alegria triste, aquele samba arrastado? Como é mesmo que você me dizia pra não me importar com a multidão? Procuro agora um caminho, um rumo ou estrada. Não espero nada, além da chuva ou da paz de se esquecer certas canções.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

À um velho amigo

Ei, você que eu não vejo há tempos, me envie uma carta, um sinal de fumaça. Moro ainda no mesmo lugar.
 
Hoje achei uma foto antiga, desbotada e com cinco quilos a menos. Você sorria largo, eu olhava distraída. Os dias eram de paz.

Você falava que eu deveria mostrar as coisas que escrevia, eu achava bobagem. Hoje eu escrevo e você não lê. 
 
A gente põe a culpa na falta de tempo, na cidade grande, no que não se pode explicar, no quão diferentes nos tornamos.

Olho a fotografia: deixamos tudo para depois e agora nos sobra o que já foi.

Por isso eu peço: escreva-me uma carta, um bilhete, diga se você também sente falta. Os dias, cada vez mais longos, escondem o caos em sorrisos cordiais.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Do amor despercebido

Ela é apaixonada. Não sabe fazer nada se não por amor. Não sabe fingir ser o que não é; não sabe fazer de conta que tudo é normal, normal. As coisas são e pronto. Ou pelo menos é assim que deveria ser. É apaixonada pela forma contrária das coisas ou pelo menos da visão contrária dos pontos de vista da maioria.

Costuma ver mais poesia em um pássaro sozinho do que em algumas obras expostas em museus. Não é que não saiba valorizar a arte, mas não acredita que ela esteja em tudo o que rotulam por aí de genial. A genialidade, muitas vezes, está na rua. No som barulhento da orquestra de metrópole, com todos seus ônibus e conversas alheias, misturadas, com seus artistas que encantam as calçadas.

 Ela é apaixonada. Milhões de livros, prosa e poesia. Mas não costuma acreditar muito em best seller. seriam todos eles, tão bons assim? Gosta da falta de pontuação proposital de Saramago, porque sempre se depara com a falta de algumas vírgulas pela vida que acabam por dar mais sentido às dores e sorrisos largos.

Apaixonada: Pela música. Talvez por isso, tenha forte resistência a escutar a programação do rádio. Nem todo barulho é música e nem toda voz afinada merece ser ouvida.

Vê a vida feito um samba, com aquela alegria-triste e aquela tristeza-esperançosa. Ela é apaixonada por todas as nuances, pelos olhares, pela cor dos dias. Ela é apaixonada por tudo que tenha opinião, mesmo que esta opinião seja o contrário de tudo o que já pôde acreditar na vida.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Do que pode ser nítido

Tenho mãos atadas e uma confusão de palavras. Tenho o que eu não sei dizer e incomoda e traz calafrios. Tenho um coração prestes a pular e uma vontade imensa de voar por esse céu hoje tão sem estrelas, vagar por essa vida iluminada pela luz artificial de qualquer cidade.

Às vezes as lágrimas insistem em pular sem acenar histórias, sem nostalgia ou perda. Tenho o incômodo das manhãs de sol, dos dias quentes, secos e duros. Eu tenho uma pilha de livros, uma porção de teorias e uma vida esperando lá fora, longe e tão perto.

Eu tenho tudo o que não sei dizer, de uma falta que eu não sei explicar, de uma vontade que é melhor nem saber. Sim, eu tenho um futuro e um jogo do contente. Eu tenho você assim: no que eu não vejo.

Eu me tenho no palpável - o resto é história, negativo exposto à luz. Eu tenho uns discos velhos, canções repetidas para dores diferentes. Não gosto da vida contada em letreiro de néon. Tenho tudo o que é translúcido e vivo buscando a nitidez.