Os olhos se perdem na espera. No telão, voos anunciam chegadas, partidas e atrasos. Mãos nos bolsos, braços cruzados, olhos no relógio e agonia no acaso.
Aeroporto é sempre igual: o choro de quem vai e a alma fica. Ansiedade de quem espera parte da vida de volta. Histórias de recomeço e saudade. Tentativas.
Lanchonetes, lojas de roupas, cosméticos e lembranças de viagem fazem parte do cenário. Afinal, sempre fica um presente para a última hora. Enquanto espero, passo os olhos pelas vitrines, me assusto: não consigo me recordar de um aeroporto que tenha uma simples banca de flores.
Um lugar, dado às delicadezas das partidas e chegadas devia, obrigatoriamente, disponibilizar a leveza de um botão de rosa. Penso o quanto seria mais bonito se, ao invés de cultivar as mãos ansiosas nos bolsos, elas pudessem segurar as boas-vindas sinceras de quem se lembrou da gentileza de uma flor?
Esta seria uma forma de potencializar a alegria daqueles olhos que saem do saguão de desembarque, cansados. Uma forma de reafirmar que aquele encontro foi muito aguardado. As flores não substituem os abraços apertados e o sorriso involuntário de todas as chegadas. Elas não são fundamentais, eu sei.
Porém, a minha luta é por manter sempre resguardada a possibilidade da gentileza.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Por cartas e cartões postais
Não sei qual foi a última vez em que uma carta me chegou pelo correio. Apenas os bancos, o serviço de telefonia e o setor de marketing de diversas empresas me enviam correspondências – mas não dizem sequer um “oi” sincero, trazem apenas valores cifrados e datas a respeitar. Quando muito, um “oi” impresso, seguido de meu nome completo (quanta informalidade!) e me oferecendo uma oportunidade incrível que eu prefiro perder.
Por isso, não sei mais qual foi a última vez em que um amigo me enviou uma carta. As minhas, viraram objeto de coleção, recontam a vida em linhas rasuradas. Hoje eu recebo emails. Não que eles sejam ruins, mas não carregam consigo a expectativa existente entre o envio e a chegada, entre a mão que escreve e os olhos que lêem apressados, exclamados em novidades.
Conheço pessoas que guardam postais dos lugares por onde passaram. Eu coleciono parte da minha vida em envelopes com selo, carimbo e data. Eu guardo uma nostalgia de quem viveu antes do instantâneo, de quem gosta do barulho de máquina de escrever e tinta de caneta sujando a mão.
A verdade é que os correios já não suprem a velocidade da chegada, nunca foram instantâneos. Ganhamos a necessidade da pressa, perdemos o charme. Hoje, as letras são corrigidas sem rasuras, corretivos, não deixam marcas, nem saudades. São automáticas, consomem, informam e morrem esquecidas, entulhadas entre spams e emails de trabalho.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A espera sobre a mesa
Todas as noites, eu coloco um prato a mais na mesa pra me convencer de que você vem pro jantar. A que horas você chega? Será que o telefone toca? Olho, assim, de canto de olho, de mãos dadas a qualquer esperança e ele continua lá: mudo e inerte. Quando toca, não me traz notícias boas, apenas um telemarketing insistente e uma chateação enorme.
Eu te espero, a comida esfria. A fome vai embora e o prato sobre a mesa. Você nunca mais apareceu, nunca se explicou. Na calada da noite, juntou seus braços e partiu, assim, pé ante pé, deixando as fotos velhas para trás.
Você vem pro jantar? Eu preparei seu prato preferido e guardei todas as facas, não haverá guerra, não haverá cortes mais profundos que os já feitos. Haverá apenas a nostalgia ao vê-lo sentado, assim, sem me encarar, nem reconhecer.
Eu ainda espero, eu ainda ponho o prato sobre a mesa. Quem sabe você não se cansa e volta. A porta fica destrancada, não precisa bater, apenas volte. E quando voltar, faça a última refeição e vá embora, sem alarde, sem perdas ou pés de lã. Saia pela porta da frente, com os bolsos vazios. Deixe os motivos sobre a mesa.
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