quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobre a reinvenção dos dias

Eu me conto nas saudades e, assim, vou me fazendo: do que não pode esperar e me espreita nos dias. Desmonto as horas e me reinvento enquanto a vida já avançou todas as casas, desmascarou as perdas e ganhos. Guardo apenas o que é sol. Já não sobrevivo, é pouco. Me refaço em qualquer felicidade gratuita.

No espelho

Posso saber o seu nome?
Você que habita meu corpo, me confunde a alma, troca os pés para abrir caminhos com as mãos.

Você que me trava a batalha,
Traz força e resposta,
mas distrai os dias para reaprender a andar.

Posso saber o que te move, o que te faz feliz?

Quero saber como chegou até aqui,
como substituiu os dentes do meu sorriso e agora já não quer partir.

O fardo é menor, seu nome é saudade?

Quando foi que você me deixou assim? Anacrônico, quase anárquico, análise tola e desnecessária?

Posso saber o que você pretende?
Aonde mesmo fica o Porto?
Responda,
é preciso içar as velas.

Quando mesmo é que você me convence? A primeira batalha é silêncio. O resto, inspiração?

Você sabe dizer, por favor, quando é que eu me transformei em mim?

sábado, 7 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

Histórias de um vagão

Domingo, entro no metrô e tem um cara com uma mochila e um violão. Com um timbre bonito, canta sobre caetanear o que há de bom.

Ao final, o vagão inteiro aplaude. Muito.

Ele começa a falar. Não rodou o chapéu, não pediu contribuição pelo seu trabalho. Falou apenas de amor.

À vida. Ao que se faz.

De repente, olhando bem dentro dos meus olhos, como se talvez advinhasse que aquelas palavras poderiam ser importantes para mim, disse:

-Vai ser feliz.

Porque ele, estava lá, tocando seu violão, no metrô, apenas para ser feliz.

Ele se calou. E novamente, veio o aplauso - que me trouxe uma vontade imensa de abraçar o rapaz.

E agradecer.

******

Já dizia o velho ditado que a minha liberdade começa onde termina a sua. Ou vice-versa.

Mas, a verdade é que vivemos na constante invasão do espaço alheio. No trabalho, na rua, no virtual: uma sucessão de querer sempre um pouquinho mais para si. Semana passada peguei o metrô. Quase vazio, afinal era domingo a tarde.

Do meu lado, um banco vago.

Próxima estação Praça onze, desembarque pelo lado direito. E foi pelo mesmo lado direito que um grupo de adolescentes adentrou ao vagão. Nao sem antes esmurrar a porta, enquanto esperavam que ela se abrisse.

Eram 7 ou 8, pareciam um batalhão.

Correram, ocuparam lugares vagos, inclusive o do meu lado. Alguns ficaram em pé. Enquanto conversavam aos berros sobre a vida sexual - frustrada - de um dos moleques, um se dependurava na barra fixa ao teto, outro corria de um lado para o outro do vagão.

Aumentei o som do mp3 a quase estourar os meus tímpanos. Alegria era o que faltava em mim, uma esperança vaga que não encontrei. Mas, não adiantou. Tive que escutar sobre a bunda alheia e insatisfações.

Tive que ver um deles se estabacar no chão, tive que aguentar outro gritando no meu ouvido para falar com o fulaninho do outro lado do trem.

Pode parecer frescura, outros diriam que eu deveria relevar, afinal, são adolescentes numa tarde sol. Terceiros ainda destacariam o quanto sou ranzinza.

(E sou, não nego).

Não nego também o direito ao frescor da juventude, mas gostaria de nao me sentir invadida, gostaria de ter um domingo de paz. Acontece que eu sou uma pessoa que gosta do silêncio.

Ensaiei um discurso. Repeti as palavras umas três vezes, mentalmente.

Desisti.

Não adiantaria. Talvez apenas a minha cabeça latejasse mais entre as estações que me separavam do destino. Aguentei firme, apenas me levantei e rumei à porta.

Contei até 240 quando a gravação do metrô anunciou Cardeal arco verde, desembarque pelo lado direito. O mesmo número de vezes que pensei esganar a cada um, com as minhas próprias mãos.



terça-feira, 13 de maio de 2014

Diga aí...

...quanta alegria cabe em uma única vida?

(e quanto da vida deve caber em uma única dor?)

...qual a distância segura que os pés devem ficar do chão?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre as pequenas alegrias

Sentada em um dos bancos da orla de Copacabana, calço meu patins. Divido o espaço com um senhor que fala ao telefone, sobre um assunto qualquer. Ao desligar, abre um sorriso e diz:

-Bom dia, minha filha!

Respondo ao bom dia e retribuo ao sorriso. Ele me pergunta do patins, fala que é uma boa atividade física e brinca:

-Haja equilíbrio!

Então ele me conta que já foi triatleta:

-De ponta, minha filha! Hoje, aos 84 anos, me contento com uma corridinha na praia.

Ele me fala sobre a sua esposa, que faleceu em 1996, das tardes de conversa com as senhoras no Parque Garota de Ipanema e demostra uma alegria de viver que não cabe em si.

Como um avô, pergunta a minha profissão e me pede para nunca parar de estudar. Mais do que isso: pede para que eu não faça nada senão por amor.

Nesta hora, me estende a mão, agradece a conversa e diz que vai correr.

-Porque aposentado é quem fica em casa, vendo televisão.

Assim, me deseja boa sorte e muitas alegrias.

- À nós, respondo enquanto aperto a sua mão.

E ele, já ensaiando alguns passos, diz:

-Isso mesmo, a felicidade foi feita para ser dividida – e seguiu seu caminho, me deixando com um coração mais leve e um sorriso nos lábios.

Entre o ir e o vir

Os olhos se perdem na espera. No telão, voos anunciam chegadas, partidas e atrasos. Mãos nos bolsos, braços cruzados, olhos no relógio e agonia no acaso.

Aeroporto é sempre igual: o choro de quem vai e a alma fica. Ansiedade de quem espera parte da vida de volta. Histórias de recomeço e saudade. Tentativas.

Lanchonetes, lojas de roupas, cosméticos e lembranças de viagem fazem parte do cenário. Afinal, sempre fica um presente para a última hora. Enquanto espero, passo os olhos pelas vitrines, me assusto: não consigo me recordar de um aeroporto que tenha uma simples banca de flores.

Um lugar, dado às delicadezas das partidas e chegadas devia, obrigatoriamente, disponibilizar a leveza de um botão de rosa. Penso o quanto seria mais bonito se, ao invés de cultivar as mãos ansiosas nos bolsos, elas pudessem segurar as boas-vindas sinceras de quem se lembrou da gentileza de uma flor?

Esta seria uma forma de potencializar a alegria daqueles olhos que saem do saguão de desembarque, cansados. Uma forma de reafirmar que aquele encontro foi muito aguardado. As flores não substituem os abraços apertados e o sorriso involuntário de todas as chegadas. Elas não são fundamentais, eu sei.

Porém, a minha luta é por manter sempre resguardada a possibilidade da gentileza.