terça-feira, 29 de abril de 2014

Entre nuvens e cafés

Destes dias nublados, sempre sobra um resto de chuva na janela para anunciar o mundo lá fora.

São tristezas mais aparentes e uma vontade que o mundo caiba debaixo do cobertor. Nas ruas, as pessoas embaladas em cachecóis e algumas camadas de casaco não perdem a pressa. O passo é rápido e os olhos também não se desfazem da mania de abraçar o chão.

Dias assim, pedem café quente e filme repetido na televisão. Mas a rotina continua apostando corrida, pintando de cinza o que também pode ser bonito.

Destes dias nublados fica sempre uma saudade descontinuada de tudo o que não vivi, das possibilidades que ignorei, das escolhas que não fiz. Mas é também em meio a esta neblina cinza que paira a cidade que não me arrependo de ter chegado até aqui.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

De algum lugar do futuro


Ana, hoje você completa 18 anos. Eu sei, neste momento você acha uma urgência em tudo: conseguir entrar na faculdade, tirar carteira de motorista, conquistar muita coisa. Eu sei que sempre manteve o sonho de ser a dona da história. Mas, em uma tentativa de dar o tombo no futuro, voltei uma década para promover este encontro. Agora, entre o que fui e o que me tornei, não tenho medo em dizer:

-Não envelheça tão rápido.

E não falo de linhas de expressão. Você, aos 28 anos, se sentirá mais bonita que nunca. Trato aqui da leveza que vai perder na próxima década se continuar por esta estrada. Escrevo do futuro apenas pra alertar, pra fazê-la forte.

Não tenha pressa em conquistar. Um lugar no mundo, um amor, uma verdade absoluta (com esta última, nem perca seu tempo, risque do seu caderno pro futuro).

Não se leve tão a sério.

Assuma apenas as responsabilidades que cabem em suas mãos. Esqueça essa coisa de abraçar o mundo, apenas se importe. As pessoas precisam tropeçar em seus próprios pés e você, por favor, entenda isso.

Aceite que às vezes as coisas dão certo, noutras, a nossa mira passa longe. Por isso, perca mais o ar. Mantenha as suas crises de riso.

Nos próximos anos, indague: porque com o tempo, você tenderá a deixar de lado tantas perguntas apenas como forma de não se chatear. Lembre-se que é preciso passo após passo se realmente quiser mudar a paisagem.

Ana, venho pedir para que, nos próximos anos, tenha o pulso firme, mas as mãos leves. Pare de ir até onde o corpo aguenta. Vá apenas até onde a cabeça deixa. Você não precisa dar conta de tudo e não precisa de nada que não queira.

Trago a boa notícia de que, nestes anos todos, você não perdeu a firmeza. Você sabe querer. Mas, peço: não seja tão dura com as suas próprias respostas. Na última década, você foi se tornando quase irredutível. Se permita chorar. Se permita chutar o balde às vezes. Você desaprendeu a recuar e isso, definitivamente, não pode ser bom.

Venho dizer que os anos serão tranquilos, apesar de algumas tempestades e um leve desespero. Mas, por sorte, você não perdeu a capacidade de ver o lado bom de tudo o que não soa tão bem assim.

Por fim, venho implorar para que você seja gentil, Ana. Principalmente com você. A vida está apenas começando.

Não se assombre com os becos e esquinas. Apenas caminhe.

A gente se encontra logo mais.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Um brinde ao amanhã que nunca chega

                                                                             “Que este amor só me veja de partida” - Hilst

Não raras são as reclamações amorosas perdidas nas conversas de rua, nas rodas de amigos. Também não são poucos os pensamentos nas tardes de domingo esparramadas no sofá, quando a nostalgia carrega aquela falsa alegria de ser de ninguém e de todo mundo ao mesmo tempo. Aí é que todo mundo se enrola (e não é pela solidão).

O problema é que as pessoas querem escolher uma companhia como se entrassem no supermercado com uma lista do necessário. Já começam errado. Ninguém escolhe nada, a vida se encarrega em. As coisas acontecem, os destinos se cruzam. Claro que há caminhos e o eterno poder do sim ou não, mas o amor não é racional. Ou, pelo menos não deveria ser.

Estou cansada de mulheres esperando o homem ideal. Listas com 300 itens, pré-requisitos importantíssimos, porque, afinal, não é possível ser feliz ao lado de um cara que não more em determinada localização geográfica, não tenha carro, emprego bom ou, sei lá, não tenha unha encravada.

Estou farta de homens que remoem escondido a vontade de jogar a vida pro alto pra tentar viver (ou pelo menos admitir em alto e bom som) um grande amor. E vice-versa. Ando de saco cheio das histórias de pessoas que não sabem abrir mão de mil amores vazios por uma gargalhada realmente leve.

A conta é simples e o preço é alto. No fundo, a verdade é que todo mundo tem medo de envelhecer sozinho. E, ainda assim, só posso acreditar que as pessoas surtaram e perderam o foco: enquanto sonham em encontrar alguém para toda vida, encarnam personagens e deixam as oportunidades passarem apenas pelo receio da tentativa - por orgulho e falta de vergonha na cara.

Assim, gastam os dias, vendendo uma simpatia vazia cultivada em um dito estilo de vida. De longe, acenam pras possibilidades e acompanham a felicidade dobrando a esquina: há a ilusão de que amanhã é o tempo do grande amor. Para o hoje, escolhem por continuar o eterno flerte, com a ilusão de que a vida oferece sempre menos do que poderia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Do que se vê

Há muito, o corpo pesa na cadeira.

Se pega pensando nas coisas da vida, no que poderia ser diferente e naquilo que a rotina consome.

Lembra dos sonhos de anos atrás: realizados, perdidos no hiato das horas ou mesmo engolidos nas convicções suspensas.

O que teria sido diferente se o caminho fosse outro? Frustrações? Vitórias? Outra vida?

Rabisca qualquer coisa enquanto conversa ao telefone.

Ouve aquele samba dolorido e, assim, recorda o antigo pra ter a certeza do que importa. Traça uma meta, rabisca um ponto.

O rumo? O vento que arrasta a chuva.

Descobre o sorriso na arte de viver o novo, mesmo que velho.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Do lado de lá

Meus olhos se debruçam na janela do ônibus. Uma vida inteira lá fora. Depressa, um rapaz atravessa
a rua, ziguezagueando entre os carros. Desvio o olhar e no outro canto me deparo com uma pressa que as pernas não alcançam: é a bengala que dita o ritmo dos passos, que de tão lentos, riscam a calçada.

Pra um, o importante é chegar. Pro outro, é o passo que não pode cessar e, assim, o mundo vai ditando
o contraste.

Da janela vejo o céu, um tanto cinza. Do lado de dentro, alguns ouvem música, outros cochilam e muitos, muitos olhos vidrados no nada. Não sei se é sono ou uma extensa ausência de sentido na rotina:
eles só sabem que precisam ir.

Será que precisam mesmo?

Quanto custa mudar a direção da vela? Será que o vento colabora? Se não, ainda tenho os remos. Há muito desisti de me entregar à correnteza. Ser feliz parece óbvio, mas muitas vezes não é. Bebemos a água da rotina e deixamos o sonho para amanhã.

Acordamos, pegamos o ônibus, trabalho, academia, cama. E, assim, já foi o ano e permanecemos no mesmo lugar, só que em outro tempo. Até quando teremos tempo? O amanhã é urgente. O sonho é urgente.

Pulo fora deste ônibus. Decidi ir ao encontro do destino.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As verdades que a gente esquece

A vida é um eterno ritual: ao som do despertador, acordar. Escovar os dentes, tomar banho, café, ônibus e trabalho. Rotina mecânica, feito andar descalço na casa escura – os móveis já sabem o seu lugar. E pelas frestas, rastros de luz para mostrar que os pés podem ir além.

A vida pode um ritual que faz a rotina não ter a carga pesada de seu nome ao ser o beijo no filho antes do sonho, a saudade das manhãs de domingo, entre lençóis e preguiça. Os dias são pequenos rituais de amor e doação, antes de qualquer pergunta.

As horas vão além da água quente pelo corpo ao final de um dia de trabalho, tudo pode ir além do tempo que no trânsito se esvai. Os dias devem ter pequenas marcas de alegrias desmedidas, para assim, saber o valor de uma risada no turbilhão chamado trabalho.

Nossa rotina deve ser marcada pela cadência da felicidade, pelo abraço que sempre nos espera em casa: almoço com os amigos – ou mesa posta pra um banquete, mesmo sem visita. Cada um sabe a sua válvula de escape, seu ritual de salvação.

É urgente saber na rotina o que nos permite viver em paz.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quanto vale?


A verdade é que pouca coisa realmente vale a pena. Pouca coisa é motivo para me levantar pela manhã. Para voltar pra casa. Para não me atirar da Rio-Niterói.

Pra ser sincera, a felicidade não é abstrata, mas um tanto fluida, espalhada pelas linhas tênues que se formam entre a obrigação e a calma.

Mas, não se engane, é preciso ser feliz na obrigação, senão é calvário.

A verdade é que pouca coisa vale a pena. Mas, não sou eu quem vai dizer quais são os limites para você. A mim, cabe a alegria plena que só existe nas certezas do que eu preciso ser.

Se não vale, não serve. É apenas passagem, trampolim pra seguir em frente.

Das coisas que me sustentam, está um sorriso no travesseiro ao lado todo dia cedo e amigos contados nos dedos das mãos. Ultimamente, tenho trocado a pressa por um café preto e as especulações por uma dose de saudade - e um impulso pro amanhã.

Se não é, não me importa. Quando for, já não terá solução.

A verdade é que pouca coisa vale a pena. E já não perco o sono, nem a paz. Tenho adotado os dias de sol e me apegado à diferença: ser o que sempre fui, sem ter medo do que me espera na esquina.