sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Do lado de lá

Meus olhos se debruçam na janela do ônibus. Uma vida inteira lá fora. Depressa, um rapaz atravessa
a rua, ziguezagueando entre os carros. Desvio o olhar e no outro canto me deparo com uma pressa que as pernas não alcançam: é a bengala que dita o ritmo dos passos, que de tão lentos, riscam a calçada.

Pra um, o importante é chegar. Pro outro, é o passo que não pode cessar e, assim, o mundo vai ditando
o contraste.

Da janela vejo o céu, um tanto cinza. Do lado de dentro, alguns ouvem música, outros cochilam e muitos, muitos olhos vidrados no nada. Não sei se é sono ou uma extensa ausência de sentido na rotina:
eles só sabem que precisam ir.

Será que precisam mesmo?

Quanto custa mudar a direção da vela? Será que o vento colabora? Se não, ainda tenho os remos. Há muito desisti de me entregar à correnteza. Ser feliz parece óbvio, mas muitas vezes não é. Bebemos a água da rotina e deixamos o sonho para amanhã.

Acordamos, pegamos o ônibus, trabalho, academia, cama. E, assim, já foi o ano e permanecemos no mesmo lugar, só que em outro tempo. Até quando teremos tempo? O amanhã é urgente. O sonho é urgente.

Pulo fora deste ônibus. Decidi ir ao encontro do destino.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As verdades que a gente esquece

A vida é um eterno ritual: ao som do despertador, acordar. Escovar os dentes, tomar banho, café, ônibus e trabalho. Rotina mecânica, feito andar descalço na casa escura – os móveis já sabem o seu lugar. E pelas frestas, rastros de luz para mostrar que os pés podem ir além.

A vida pode um ritual que faz a rotina não ter a carga pesada de seu nome ao ser o beijo no filho antes do sonho, a saudade das manhãs de domingo, entre lençóis e preguiça. Os dias são pequenos rituais de amor e doação, antes de qualquer pergunta.

As horas vão além da água quente pelo corpo ao final de um dia de trabalho, tudo pode ir além do tempo que no trânsito se esvai. Os dias devem ter pequenas marcas de alegrias desmedidas, para assim, saber o valor de uma risada no turbilhão chamado trabalho.

Nossa rotina deve ser marcada pela cadência da felicidade, pelo abraço que sempre nos espera em casa: almoço com os amigos – ou mesa posta pra um banquete, mesmo sem visita. Cada um sabe a sua válvula de escape, seu ritual de salvação.

É urgente saber na rotina o que nos permite viver em paz.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quanto vale?


A verdade é que pouca coisa realmente vale a pena. Pouca coisa é motivo para me levantar pela manhã. Para voltar pra casa. Para não me atirar da Rio-Niterói.

Pra ser sincera, a felicidade não é abstrata, mas um tanto fluida, espalhada pelas linhas tênues que se formam entre a obrigação e a calma.

Mas, não se engane, é preciso ser feliz na obrigação, senão é calvário.

A verdade é que pouca coisa vale a pena. Mas, não sou eu quem vai dizer quais são os limites para você. A mim, cabe a alegria plena que só existe nas certezas do que eu preciso ser.

Se não vale, não serve. É apenas passagem, trampolim pra seguir em frente.

Das coisas que me sustentam, está um sorriso no travesseiro ao lado todo dia cedo e amigos contados nos dedos das mãos. Ultimamente, tenho trocado a pressa por um café preto e as especulações por uma dose de saudade - e um impulso pro amanhã.

Se não é, não me importa. Quando for, já não terá solução.

A verdade é que pouca coisa vale a pena. E já não perco o sono, nem a paz. Tenho adotado os dias de sol e me apegado à diferença: ser o que sempre fui, sem ter medo do que me espera na esquina.

domingo, 8 de julho de 2012

Com as escolhas nas mãos


Acordar cedo, tarde, não acordar. Seguir em frente, parar, alterar a rota. Aprender a dançar, a cair e, quem sabe, até rodopiar. Pedir as contas do que não tem brilho, distribuir possibilidades a cada esquina.

Desistir, começar, recomeçar pelo meio – ou mesmo por algum final. Afinal, é a gente quem escolhe entre o talvez e o sim e determina o peso do não.

São nossos pés que ditam o ritmo, são nossas mãos que apontam a direção. Sorrir não é mostrar os dentes: Existir não carrega o peso e a alegria do viver.

A gente é que decide a verdade, cada um pinta a sua esperança da cor que lhe convêm - e não me venha dizer do contrário, confundir ou gritar sua razão.

Entenda que abraçar o vento traz liberdade, mas não aponta a direção, porque a gente é quem sabe a hora de içar a vela, mudar o rumo ou perder o prumo.

A gente é quem sabe a hora de parar, a necessidade do grito e a contramão. Porque, lá no fundo, a gente é quem sabe o lado mais fraco da corda e, calar, tantas vezes, vale mais que a potência da voz.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sobre o passo seguinte

Às vezes eu procuro um motivo para evitar o tropeço guardado nos pés. Uma verdade contada, cortada na carne de quem espera e não sabe - nem vê.

Dos motivos, um tanto gastos, sobra-me ainda a necessidade do caminhar. Porque a vida muda, mas a verdade é que, no fundo, pouca coisa ganha o opaco.

Mudam as cores, a exposição ao sol, a necessidade da chuva.

Mas, não muda o que se ganha pelo simples fato de seguir em frente. São histórias que carrego nos bolsos para não perder o importante do olhar.

São amigos que ditam a reta, quando não há linhas no mapa. Assim, (re)invento o caminhar, mesmo que os dias não tenham sol - porque a esperança sorri, mesmo que entre as frestas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mais um ano se despede

Da janela do trabalho, vejo a chuva de papel picado anunciando o final de mais um ano. É o momento de triturar aquilo que não mais serve e defenestrar as tristezas, na expectativa de criar novas esperanças. Na avaliação, não há motivos para reclamar: Foram vitórias calculadas e tantas outras não previstas. Também há de se comemorar cada derrota (mas estas não precisam não precisam de cartazes, pois devem ser lembradas em silêncio, garantindo o acerto dos próximos passos).

Dentre os resultados deste ano, mais importante do que comprar o apartamento próprio, voltar a estudar e atingir estabilidade financeira, está a manutenção das conquistas menos palpáveis e, até mesmo, mais antigas. Porque sentar em um bar ou restaurante sem se preocupar tanto com o total da conta é bom, mas o melhor mesmo é ter amigos verdadeiros para dividir a mesa. Estejam eles no Rio de Janeiro, no planalto central ou em qualquer universo paralelo, o meu grande feito tem se repetido, ano após ano, ao garantir a permanência das grandes amizades, apesar de todas as mudanças.

Outro dia, um amigo comentou que a nossa amizade não era mais uma questão de anos de convivência, já havia se tornado uma questão de vida. E ele está certo. Aprendemos a dividir os dias com pessoas que estão longe, ou mesmo virando a esquina. Elas se fazem importantes pelo volume das risadas e pelo ombro no desespero. São elas que me fazem seguir em frente, para conquistar senão o mundo, o direito de ser feliz com as pequenas coisas cotidianas. É uma questão de vida porque aprendemos a comemorar lado a lado, a confiar, a falar sem medo.

Ter grandes amigos é o resultado de uma vida inteira. E eu sou grata por isso. O gastar dos anos já não mais importa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Maestro

Em um final de semana, destes de sol, que nos convida para uma caminhada descompromissada, as pessoas correm entre lojas abertas, carros que furam o sinal e uma arquitetura que se esconde atrás dos letreiros luminosos.

Entre espaços onde haviam prédios que foram derrubados por uma dita modernidade, deparo-me com um morador de rua, sentado sobre uma mala.

Vidrado, concentrava os olhos no aparelho de televisão disponível em uma banca de revistas.

Na tela, Pavarotti.

Ele não estava sob uma marquise, nem esquecido em um canto: Fez do largo da Carioca sua sala de estar. Tomado pela música, ignorava o mundo, talvez em uma inversão de papeis.

Enquanto as pessoas corriam, fizera a opção por sequer piscar. Como se na música estivesse todas as respostas das dores cotidianas.

Sentado, rodopiava.

Dançava parado ao som de uma música triste. Parecia alegre. Era ele a única verdade em um mundo inconveniente.Talvez fosse ele, o único que fizera as escolhas do saber viver.
 
No silêncio, aprendeu a orquestrar o caos.