quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

No Restaurante

Meio-dia. Hora exata para entrar em um restaurante e participar da falsa e obrigatória comemoração de se dividir a mesa com desconhecidos. É o momento de sentir-se um forasteiro na terra de pessoas mudas ou, ainda, de escutar conversas privadas em mesas públicas.

Não é mais uma arte tornar-se invisível em um lugar onde não há cadeiras vazias: Ninguém se percebe, não há sequer o pânico de semi-conhecidos.

Nestas horas, há apenas olhos vidrados em seus próprios pratos, perdidos entre a salada e um bom filé.

Solidão que se anuncia na pressa da grande cidade que não tem tempo para a história de seus dias. O almoço, principalmente nos dias úteis, é o melhor anúncio para um estilo de vida independente (na verdade um tanto solitário).

A regra é o não incomodar, não incomodar-se.

O máximo que dirão será um “com licença” ou “o lugar está ocupado?”. É necessário se acostumar: A fala ficará restrita a um pedido de bebida ao garçom. Não sobra espaço, nem ar. Não espere um sorriso, uma cortesia, muito menos um possível amigo. A cidade convida para o almoço, mas traz à mesa a ausência de rostos – e alma.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Canção para dias mornos

Lá fora uma chuva fina. Daquelas que, aos poucos, desenterram os mortos. Uma chuva pra tirar a pressa, trazer qualquer nostalgia barata de um tempo que não foi tão bom.  Fico a contar as janelas, as luzes que se apagam, a colecionar a vida que circula por aí.

Eu me encontro pelas esquinas. Perco-me nesta música surda, no caos ordenado, nas cartas marcadas. Mas deixa a música tocar, tomar conta do mundo. Uma hora o caos acaba e a alma dança sem rótulos.

Essa chuva que cultiva o que não tenho, deixa o sorriso suspenso e a lágrima escondida. Ainda assim, eu deixo a tristeza pra mais tarde, para o nunca - ou mesmo ao travesseiro. Construo o que não tenho; o amanhã é logo hoje, não é? 

Deixa a música acabar, deixa a vida ir se levando, mesmo com pés trôpegos, mesmo que apertada, mesmo que... Deixa a vida ser mais leve, mais vida e acaso. Saiba que há momentos claros,  mesmo em dias mornos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Moças Diferentes

Quem me acompanha por aqui sabe que há quase um ano, comecei, junto com duas amigas, com o Projeto Essa moça tá diferente! que nada mais é do que um blog para publicação dos nossos textos e discussão de diversos temas.

Logo que o site começou a dar certo e o número de visitas aumentou consideravelmente, a empresa que cuidava do nosso servidor parou de oferecer o serviço e o Essa moça foi retirado do ar.

Decidimos voltar, agora com atualizações diárias: textos, comentários, músicas, literatura. Espero sua visita lá no Moças Diferentes.

O Ana Flávia Alberton continuará aqui e será atualizado também com mais frequência, então, não me abandone por aqui também.

=) 

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sístoles e diástoles

Definitivamente não gosto de orelhas de livro e sinopses de filmes. Uma história precisa ser descoberta aos poucos, em cada construção de cena, em cada frase lapidada. As orelhas de livro são divididas em dois grupos: as que expõem por esconder demais e as  que  tiram a graça de qualquer leitura.

Talvez ignore os resumos por gostar de histórias por inteiro, de vidas inteiras procurando as perguntas certas, evitando as respostas prontas. Gosto do caminho que se faz com o passo, gosto de conclusões próprias, mesmo que tardias.

Um livro é uma vida - e vidas incríveis perdem a graça quando resumidas. A leveza cotidiana não cabe na sinopse. O olhar distraído pela arquitetura da velha cidade, o sorriso bobo da criança que percebe o cão, não cabem nas poucas linhas de qualquer orelha de uma intensa vida.Talvez por isso, tenha tantos problemas com resumos.

Não me peça para contar-lhe a história de um filme. Eu lhe direi das cores, dos sorrisos, de qualquer leveza, porque são nos detalhes que se entende um discurso e entender, meu deus, são tantas verdades...No máximo, eu lhe direi sobre tantas coisas, mas não serei clara, tampouco objetiva. Eu ignoro as sinopses, prefiro descobrir a vida ao acompanhar as minhas sístoles e diástoles.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Conversa banal (Ou talvez o mundo ainda tenha solução)

A malemolência do carioca se mistura com um jeito de falar já intimidando, ele gesticula demais. O carioca dá bronca pra desabafar, independente se o outro está, ao menos, errado. Porém, aprendi uma coisa: o supermercado é reduto de pessoas educadas.

Isso não significa que o atendente vai responder ao bom dia -  ou ao menos sorrir. Os cariocas não vão retirar seus carrinhos do meio dos corredores ou pedirão licença.  Ainda assim, seja na fila do caixa, da padaria ou açougue, terá sempre uma velhinha simpática, com seus óculos grandes escorregando pelo nariz. Terá sempre uma velhinha com seu carrinho de feira, de rodinhas velhas.

Ela irá contar da vida, reclamar baixinho, sorrir distraída, enquanto pede o queijo com menos sal. Ela vai lembrar que a vida é difícil, mas doce  -e que se a vista embaça, é só fazer o croché com linha grossa.

Hoje conversei com uma senhorinha de seus lá 70 anos. Ela me contou da reportagem triste que leu sobre irmãs gêmeas que nasceram cegas e mudas. Contou-me que já não consegue mais  se distrair com o artesanato e que já está na fila esperando operação de catarata.

 Hoje eu conversei com uma senhora que tinha olhos firmes e mãos trêmulas. Contou-me de tudo o que é triste e belo. Contou-me sobre tantas outras coisas, sobre tantos mistérios que só a velhice permite as respostas.

Ao final da fila, após pegar 150 gramas de azeitonas verdes sem caroço, me sorriu, agradeceu pela conversa e seguiu seu destino, a passos curtos. Mal sabe ela que foi a sua calma que salvou  meu dia.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Da eternidade do efêmero

Quisera congelar aquele momento. Talvez emoldurá-lo, mas não para contar vantagem e sim para poder admirá-lo, todos os dias, sem folhear a memória.

Até mesmo porque a memória é falha e sempre reconta a história de uma forma diferente. Emoldurá-lo para que talvez se lembre, para sempre, de cada sensação, de cada pensamento que entrava em choque, perdido em dúvidas e ansiedade.

Tudo porque dentro de um instante há milhares de instantes que percorrem e perguntam onde encontrar o momento certo, preso a tantos presentes distintos e amenos.

Quisera guardar aquele e todos os fatos existentes em tempos paralelos num tempo absoluto. Mas o destino, brincalhão, preferiu oferecer momentos contínuos de felicidade, evitando prender o olhar a um momento: Ofereceu-lhe a eternidade de tudo o que é efêmero.

Daí em diante, a vida pôde ser um filme sem cortes, de sorrisos largos, de dias bons, mesmo em momentos ruins. Daí em diante, se pôde entender que não é preciso emoldurar a alegria, basta simplesmente estendê-la a mão.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Fasten seat belt while seated – Use seat cushion for flotation

Não há como pensar em um aeroporto. A confusão de vozes no alto-falante ocupa a paz existente para qualquer pensamento, não há espaço para algo que vague solto. O barulho inibe  aquela sensação de que a gente pensa sem pensar, sem saber os motivos e muitas verdades.

Parece haver espaço  apenas para a dor de cabeça, enquanto nomes e voos são anunciados 30 vezes como "última chamada". A cada 40 segundos, uma mensagem nova, um boa noite novo e vozes que se alternam e se perdem com a graça de quem não teve treinamento para falar em um rádio ou microfone.

Atenção clientes do voo 3520, devido ao reposicionamento da aeronave, o embarque imediato deve ser realizado pelo portão C, localizado no piso inferior deste aeroporto.

Só sei que em um tempo de 20 minutos (das duas horas de espera no aeroporto de Brasília), anunciaram um tal de sr. Macário nove vezes para o voo 3520, com destino a Salvador, Aracaju e conexões, embarque pelo portão C, de casa.

Além disso, é importante lembrar que, não importa o destino, se você está em um aeroporto, sempre será solicitado o documento de identificação e o cartão de embarque, tudo, claro, segundo determinação da ANAC, desde o dia 1º de março de 2010.

Tive a impressão de que, a qualquer momento, uma voz nem tão aveludada assim, anunciaria no alto-falante: Chamada final. Piso inferior. Por favor, senhor Macário, mesmo que eu o chame mais dez ou quinze vezes, esta é a ultima chamada. Por favor, me atenda, venha ao portão, o piso é o inferior... Por favor, senhor Macário, vamos lá, é só descer as escadas localizadas no centro do primeiro piso. E a  voz já sem veludo algum continuaria insistindo eternamente até que o Sr. Macário resolvesse cooperar e descer as escadas para procurar o número ou letra indicado como portão de embarque.

Entre vozes alternadas no alto-falante, crianças que correm, senhores engravatados e turistas sem pressa, me perco com tantos destinos que não me pertencem. Porém, eu sei que, ainda assim, terão prioridade em cada um desses embarques mulheres acompanhadas de crianças de colo, idosos, clientes cartão fidelidade azul, pessoas que necessitem de ajuda especial e, claro, o sr. Macário que atrasou o 3520, porque tomava um café.