segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Pedro e Afonso

18:30: Entro no supermercado, compro o que me falta antes de chegar em casa. Os passos, ditados pela lista de afazeres, seguem apressados.

No caminho habitual, olho adiante, lá debaixo da marquise: avisto um carrinho desses de papeleiro diante de um comércio já fechado.

Perdendo a pressa,retomo o olhar: parte do papelão está cuidadosamente dobrada e amarrada, já sobre o carrinho. Um senhor, aparentando alcançar seis décadas de vida, um tanto sujo, amarra cuidadosamente outros materiais.

Ao lado, preso a uma corda, destas de varal, um vira-lata. Mediano, caramelo,simpático. Ao seu lado,uma vasilha de água, outra de ração.

Imediatamente paro.

Pergunto o nome do cachorro.

-Este é o Afonso, responde sorrindo.

Sem saber se o sorriso é pelo amor ao bicho ou por ser notado, continuo puxando assunto:

-E o seu nome, qual é? O meu é Ana,prazer.

-Pedro, Ana, Pedro, afirma com um sorriso maior ainda.

-O dia foi bom hoje?

-Fazia tempo não vinha pelas bandas de cá, até que rendeu, diz sinalizando com a cabeça a pilha de recicláveis.

-Ah é, onde geralmente o senhor fica?

-Ah, minha filha, eu rodo muito...não tenho uma ponto fixo não. A vida vai apenas me levando.

-O Afonso te acompanha sempre?

-Ele é meu companheiro, por isso, à ele ofereço o melhor - diz apontando a vasilha de ração.

-Está certo, a gente tem que cuidar de quem cuida da gente, né? Mas, me diga uma coisa...e o senhor, já comeu?

Pedro, que já me olhava nos olhos, como quem reconhece um amigo, abaixou o olhar. Adotando um tom quase silencioso, me diz que
não.

Pergunto se posso fazer alguma coisa por ele. Imediatamente me encara de uma maneira doce e responde:

-Ah, minha filha, você falou comigo. Já fez muito. O resto, eu e o Afonso damos um jeito, a gente sempre dá.

Na lateral do carrinho, penduro uma de minhas sacolas, desejo boa noite e sigo.

Dona Fátima

Enrolo a gata numa toalha e volto caminhando do veterinário. Ainda pequena, morre do medo do mundo. A cada novo barulho esconde a cabeça debaixo do meu braço. No caminho, duas mães mostram a gatinha para os filhos e sorriem. Sorrio de volta. Porém, passos à frente, no meio da praça Afonso Pena, uma senhora me pára.

-Que coisa bonita, minha filha. É um gato ou um cachorro?

Percebo anéis azulados em seus olhos, provavelmente catarata.

-É uma gatinha, se chama Syrah.

-Ah, que bela. Eu já tive muitos gatos e alguns cachorros. Foram minhas companhias por muitos anos...

E assim começou a me contar uma longa história de sua vida. Mas, no meio da fala, se interrompeu:
-Você deve estar com pressa e eu aqui falando besteiras...

Respondi que não, que gostaria de ouvir a sua história até o fim.

Assim, ela continuou. Me contou dos animais de estimação e dos dois maridos que já partiram.
-Eu sempre estou aqui pela praça, venho tomar um sol pela manhã. Hoje sou eu e o mundo, não há porque ficar trancada em casa.

Em seguida, pergunta onde eu moro. Explico que é perto, três quadras adiante. Ela me fala seu endereço, inclusive o número do apartamento.

- Se você quiser, aparece pra tomar um chá comigo qualquer dia desses.

Agradeci ao convite e segui meu caminho.

Hoje acordei pensando na dona Fátima. Se eu me recordasse os números iria tomar um chá com ela neste domingo chuvoso. Eu mesma levaria os biscoitos.

Mais cedo, estive na praça na tentativa de encontrá-la, mas acho que a sorte não bate duas vezes na mesma porta.

Na Tijuca

A primeira vez que estive na Tijuca ainda não morava no Rio de Janeiro. Depois de ver o bairro correr pela janela do ônibus, sentenciei:

- Eu moraria aqui.

Acontece que a vida me instalou na altura da Afonso Pena. E, quase cinco anos mais tarde, posso dizer que me sinto em casa.

Desde o primeiro dia, me atraiu essa coisa de comércio misturado com residencial, algum verde no horizonte e a quantidade de crianças brincando na praça nos finais de tarde. Pra mim, este é o principal termômetro: um local onde o espaço é ocupado pela algazarra de se correr livre no parquinho é sim um bom lugar pra se viver.

Acontece que vim morar numa rua sem saída. Com duas creches e uma escola de inglês. As minhas entradas e saídas são repletas de pais que levam pelos braços seus pequenos. De chorinhos no portão dos que ainda não entendem porque estão ali. Do abraço na amiguinha e tchau em pequenas mãos que ainda rabiscam as primeiras perspectivas a cada final de tarde.

No meu dia sempre tem boa noite do porteiro da creche, com um sorriso largo no rosto de quem tem a certeza de que aprende mais do que ensina. Sempre tem uma criança que sai correndo desgovernada e outra que olha com curiosidade os micos que habitam as árvores da rua.

E nessas horas eu só penso no privilégio de poder participar dessa dinâmica, de alguma forma. São crianças que não sei o nome, nem a história e, ainda assim, me salvam ao tirar a poeira dos olhos, todos os dias.

Obrigada, Pedro

O Aterro do Flamengo é repleto de gatos. Me ajoelho ao lado de um, branco, gordo e começo acariciá-lo.

Em poucos minutos, chega um menino, com cabelo tigelinha e uns seis anos de idade:

-Eu também posso passar a mão nele?

-Claro que pode, ele é mansinho... E o seu nome, qual é?

- Pedro da Silva Soares, responde como quem tenta lembrar o que decorou.

-O meu é Ana. Olha só, faça carinho aqui debaixo do queixo, ele adora...

O menino obedece. Mas, enquanto acaricia o gato, usando do sexto sentido aguçado que toda criança tem, levanta os olhos e diz:

-Você tá triste?

Desconcertada, sorrio:

-Um tanto, mas passa.

-Não fica triste não, olha o tanto de gato bonito pra gente brincar.

Obrigada, Pedro

O mais bonito clichê

Da minha mesa, observo um casal. Ela, olhos no celular enquanto esperam o garçom trazer a conta. Ele, com os cotovelos apoiados na mesa, começa a cantar:

-Quis evitar teus olhos, mas não pude reagir...Fico à vontade então. Acho que é bobagem a mania de fingir, negando a intenção...

Fico tensa, esperando a reação da moça, mais ou menos da minha idade, cabelos presos num coque alto, enquanto a voz do rapaz ecoa no salão interno (e vazio) do bar-livraria.

Mas, antes que meu desespero se concretizasse, ela levanta os olhos, esquece a tecnologia, abre um sorriso e continua:

-Quando um certo alguém cruzou o meu caminho e mudou a direção...chego a ficar sem jeito, mas não deixo de seguir a tua aparição.

Sorrio aliviada.

Os amores correspondidos me acalmam, aquecem e me fazem seguir. Mesmo que num clichê de uma música do Lulu.

Dois aromas

Saímos andando a esmo: observando a harmonia entre as construções e a natureza, inventando histórias para as largas pedras que compõem as ruas. No meio do caminho, uma livraria-café. Trocamos olhares e um sonoro:

-Fudeu.

Sem pensar mais nada, entramos. Tateamos os livros, espiamos a vida por aquelas janelas. Lá no fundo do casarão, um quintal com jardim a la Tom Jobim, como fez questão de ressaltar o Sérgio – dono do local.

Ali, as plantas crescem com vontade própria, ocupando os espaços, com o direito de serem livres – e selvagens. No meio do poético jardim, um forno de barro, feito o da casa de minha avó. Pude, por um instante, sentir o cheiro do pão quente de minha infância.

Sorri distraída.

Pedimos um café, puxamos a cadeira, dividimos poesia lida em voz alta, cantiga de roda na vitrola e história de vida. Descobrimos o amor que move o lugar, os anseios que fazem o Sérgio abrir as portas do lirismo para quem quiser simplesmente ter a sorte de estar ali.

Pela mesma porta, saímos leves, alguns sonhos reciclados e a certeza de que as boas histórias estão no espreitar da esquina.

domingo, 14 de setembro de 2014

Não há mais sábado na Cinelândia

...e nesta bela tarde de sábado em que me extravio pelo centro, há apenas alguns palermas como eu zanzando pela Cinelândia.Só agora reparo isso e me sinto um velho senhor saudosista: não há mais sábado na Cinelândia. (Rubem Braga, década de1950).



Meu caro Rubem Braga,

Hoje eu coloquei uma roupa branca, bem limpa, e fui à Cinelândia, como você fazia nas tardes de sábado. Sinto lhe informar que a Confeitaria Brasileira não está mais na Rua Álvaro Alvim. Nas proximidades do número 23, ainda resiste um cinema, hoje sem glamour e que se detêm à exibição de filme pornográfico, assim mesmo, no singular. Saí com a esperança tola de repetir a loucura do waffle com mel de sua juventude. Mas, já não há confeitarias na Cinelândia. Alguns poucos cafés resistem para atender a executivos apressados. Mas nenhum deles possui o peso das grandes casas de chá de sua década de 1930.

Aliás, destes áureos tempos, pouca coisa resiste. Hoje não há mais os cinemas Trianon, Parisiense, Império, Pathé, Capitólio, Rex, Rivoli, Metro Passeio, Plaza e Colonial. O Cine Vitória virou livraria e o Cine Palácio, depois de tantos anos corroído pelo esquecimento, promete reabrir como teatro, no ano que vem. De todos, apenas o Odeon se mantêm em pé, apesar de estar fechado por tempo indeterminado para reformas. Muitas destas salas de exibição, Rubem, acredite: viraram igrejas evangélicas e lojas de fast food.

O Café Rivera da década de 1920 continua lá, atendendo pelo nome de Amarelinho. Mas, a Casa Flórida, sua imponente vizinha, fechou as portas há décadas: não há mais cortes de seda à venda na Cinelândia. E, ainda assim, o Café Rivera não é mais um café. Com a alcunha de tradicional, serve chopp e carnes com batata frita.

Não há mais passeios na Cinelândia nas tardes de sábado. Apenas um emaranhado de pernas apressadas, de caminhos sempre de passagem e pouco olhar. Não há mais moças do Méier com seus vestidos de seda e bocas pintadas, nem cadetes e guardas-marinhas em seus uniformes e espadins.

O Municipal, imponente, continua lá, claro. Diante dele, Rubem, me sinto uma retardatária e desejo a máquina do tempo. Sentada na escadaria do Theatro, observo a Praça Floriano. O Palácio Monroe, como você sabe, saiu da vista da cidade ainda na década de 1970. Ah, como eu gostaria de tê-lo visto de perto. O espaço hoje é ocupado por moradores de rua, guardas municipais encostados em suas viaturas e uma solidão imensa que ecoa entre as grandes construções que resistem.

Há uma leve tristeza que paira sobre a Cinelândia. Talvez ela seja um aviso de que é preciso ter o olhar atento e recuperar tudo o que o tempo vendeu pra história. Hoje não há waffles, nem Broadway brasileira, nem qualquer resquício de glamour. Porém, as construções ainda estão por lá, quase escondidas, esperando por olhos menos embaçados.

(E eu te juro, Rubem, apesar de tudo, ainda tenho a esperança de encontrar uma borboleta amarela pairando por lá).