Saímos andando a esmo: observando a harmonia entre as construções e a natureza, inventando histórias para as largas pedras que compõem as ruas. No meio do caminho, uma livraria-café. Trocamos olhares e um sonoro:
-Fudeu.
Sem pensar mais nada, entramos. Tateamos os livros, espiamos a vida por aquelas janelas. Lá no fundo do casarão, um quintal com jardim a la Tom Jobim, como fez questão de ressaltar o Sérgio – dono do local.
Ali, as plantas crescem com vontade própria, ocupando os espaços, com o direito de serem livres – e selvagens. No meio do poético jardim, um forno de barro, feito o da casa de minha avó. Pude, por um instante, sentir o cheiro do pão quente de minha infância.
Sorri distraída.
Pedimos um café, puxamos a cadeira, dividimos poesia lida em voz alta, cantiga de roda na vitrola e história de vida. Descobrimos o amor que move o lugar, os anseios que fazem o Sérgio abrir as portas do lirismo para quem quiser simplesmente ter a sorte de estar ali.
Pela mesma porta, saímos leves, alguns sonhos reciclados e a certeza de que as boas histórias estão no espreitar da esquina.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
domingo, 14 de setembro de 2014
Não há mais sábado na Cinelândia
...e nesta bela tarde de sábado em que me extravio pelo centro, há apenas alguns palermas como eu zanzando pela Cinelândia.Só agora reparo isso e me sinto um velho senhor saudosista: não há mais sábado na Cinelândia. (Rubem Braga, década de1950).
Meu caro Rubem Braga,
Hoje eu coloquei uma roupa branca, bem limpa, e fui à Cinelândia, como você fazia nas tardes de sábado. Sinto lhe informar que a Confeitaria Brasileira não está mais na Rua Álvaro Alvim. Nas proximidades do número 23, ainda resiste um cinema, hoje sem glamour e que se detêm à exibição de filme pornográfico, assim mesmo, no singular. Saí com a esperança tola de repetir a loucura do waffle com mel de sua juventude. Mas, já não há confeitarias na Cinelândia. Alguns poucos cafés resistem para atender a executivos apressados. Mas nenhum deles possui o peso das grandes casas de chá de sua década de 1930.
Aliás, destes áureos tempos, pouca coisa resiste. Hoje não há mais os cinemas Trianon, Parisiense, Império, Pathé, Capitólio, Rex, Rivoli, Metro Passeio, Plaza e Colonial. O Cine Vitória virou livraria e o Cine Palácio, depois de tantos anos corroído pelo esquecimento, promete reabrir como teatro, no ano que vem. De todos, apenas o Odeon se mantêm em pé, apesar de estar fechado por tempo indeterminado para reformas. Muitas destas salas de exibição, Rubem, acredite: viraram igrejas evangélicas e lojas de fast food.
O Café Rivera da década de 1920 continua lá, atendendo pelo nome de Amarelinho. Mas, a Casa Flórida, sua imponente vizinha, fechou as portas há décadas: não há mais cortes de seda à venda na Cinelândia. E, ainda assim, o Café Rivera não é mais um café. Com a alcunha de tradicional, serve chopp e carnes com batata frita.
Não há mais passeios na Cinelândia nas tardes de sábado. Apenas um emaranhado de pernas apressadas, de caminhos sempre de passagem e pouco olhar. Não há mais moças do Méier com seus vestidos de seda e bocas pintadas, nem cadetes e guardas-marinhas em seus uniformes e espadins.
O Municipal, imponente, continua lá, claro. Diante dele, Rubem, me sinto uma retardatária e desejo a máquina do tempo. Sentada na escadaria do Theatro, observo a Praça Floriano. O Palácio Monroe, como você sabe, saiu da vista da cidade ainda na década de 1970. Ah, como eu gostaria de tê-lo visto de perto. O espaço hoje é ocupado por moradores de rua, guardas municipais encostados em suas viaturas e uma solidão imensa que ecoa entre as grandes construções que resistem.
Há uma leve tristeza que paira sobre a Cinelândia. Talvez ela seja um aviso de que é preciso ter o olhar atento e recuperar tudo o que o tempo vendeu pra história. Hoje não há waffles, nem Broadway brasileira, nem qualquer resquício de glamour. Porém, as construções ainda estão por lá, quase escondidas, esperando por olhos menos embaçados.
(E eu te juro, Rubem, apesar de tudo, ainda tenho a esperança de encontrar uma borboleta amarela pairando por lá).
sábado, 30 de agosto de 2014
Árvores gordas e palmeiras finas: o remorso eterno de não morar em Santa Teresa
Essas árvores antigas, esses muros imensos cercando o mistério dos parques e dos casarões, tudo isso tem um poder de beleza e de sossego. Por um instante a gente imagina viver assim, fora de toda a agitação vã, para pensar com mais sossego na vida. (Rubem Braga - década de 1950.)
Meu caro Rubem,
A primeira vez que coloquei os pés em Santa Teresa, algo me disse que ali eu teria raízes. Talvez suspensas mas, ainda assim raízes. Meus olhos percorriam os muros altos, as casas que se escondiam entre árvores (desculpe, Rubem, não consegui encontrar as suas jaqueiras), e aquele sentimento de estar, talvez, um pouco mais perto do céu, ao me localizar longe do caos.
Você estava certo em relação a este sentimento que paira sob a cabeça dos moradores do Rio de Janeiro: mais de seis décadas depois, lá no fundo, todo mundo ainda carrega uma vontade de subir aquelas ruas de paralelepípedos com a vida nas malas. Ter, talvez, a sorte de se deparar com uma travessa batizada com seu nome, um pomar no fundo do quintal, ter o Rio de Janeiro emoldurado em sua janela. Mas, um a um vai desistindo: porque morreria de tédio, porque não tem transporte o suficiente ou simplesmente justificam com um sonoro “ah, é difícil”.
Sinto lhe informar, meu caro Rubem, que o bonde já não roda mais. Dizem que volta, a cidade aguarda em silêncio a retomada desta história. Até 2011, veja, 59 anos mais tarde que uma de suas publicações sobre o bairro, o bonde nunca havia parado. Até que morreram seis. E o acidente foi manchete em todos aqueles jornais que você já dizia que noticiavam tudo, menos a vida.
Eu, como você, me surpreenderia se um destes noticiários viesse nos mostrar a sombra das árvores, aquele ar mais fino. Todo mundo sabe, mas ninguém diz que Santa Teresa está acima do restante de boa parte do Rio. E não me refiro à geografia. A paz é muito grande para muitos suportarem. Ainda há pombos pelas ruas, ainda se escuta de longe, bem de longe, o burburinho da cidade lá embaixo. Mais de sessenta anos depois, Santa Teresa cresceu, mas ouso dizer que pouco mudou. Os sonhadores é que se agarram aos velhos casarões do bairro, sonham em fazer das inúmeras placas de “vende-se”, lares.
Ainda são os sonhadores que mantêm o bairro de pé, meu caro Braga. E é a pé que se escuta os sotaques do mundo entre o asfalto e o trilho do bonde. É por ali que os artistas abrem as suas casas e os senhores dão bom dia a quem passa, às oito da manhã.
Cercada, Santa Teresa divide limites por ladeiras tortuosas com o Centro, Glória, Laranjeiras, Cosme Velho, Catumbi, Catete e Rio Comprido. Mas, venho lhe contar que, sabido das coisas, o bairro ainda guarda sua válvula de escape: acessos ao Parque Nacional da Tijuca e ao Corcovado. Assim, Santa Teresa pode dormir em paz.
Tenho a impressão que você ainda gostaria dessa Santa, um tanto mais idosa: parou no tempo, as pessoas se chamam pelo nome, te pegam pela mão. Por outro lado, fizeram um cinema lá em cima, há samba na rua, bares, restaurantes, pousadas e barulho. Mas, não há grandes supermercados, nem bancos, e ouso a concordar com aquilo que você disse, sobre parecer ser um lugar onde a burocracia não chega. É um bairro blindado por seus grafitis que convivem em harmonia com os casarões centenários.
É como se houvesse uma lei: em Santa Teresa é impossível ser triste. Os problemas não sobem ladeiras, apenas descem. Talvez por isso o eterno desejo pela vida na mala, talvez por isso, o eterno adiamento desta concretização. Santa Teresa é uma eterna espera pela remota possibilidade de que toda a cidade tenha o mesmo ritmo, esse riso bobo que perdura entre um o trilho do bonde e um café.
Mas, sinto em discordar, meu velho Braga. Não consigo, mesmo na tristeza, sequer pensar em odiar as árvores lentas do século passado, nem sou tomada pelo mais remoto cheiro de mofo. E, ainda ouso dizer que lá no fundo, depois desta toda capa ranzinza, você também sempre soube que a alma funciona melhor em Santa Teresa.
P.S.: E ah, caso não tenha percebido, eu sou uma dessas mulheres que você diz ser de um remoto mundo escondido, que aceitariam morar em Santa Teresa, levadas pelo braço.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Sinais
Não, a vida não pode ser uma sucessão de acasos. É muito pouco perto do que cabe entre as mãos. Acredito que o destino empurra, mas só o dizer concretiza.
Por isso, é preciso estar atento ao que dobra a esquina e ao que sobra sem dizer.
Esqueça, não existe coincidência: é a vida dando mais uma chance, escancarando diante dos olhos os sinônimos da leveza.
Aos poucos, entendi que é na entrelinha que se constrói aquilo que chamam invariavelmente de destino.
Por isso, é preciso estar atento ao que dobra a esquina e ao que sobra sem dizer.
Esqueça, não existe coincidência: é a vida dando mais uma chance, escancarando diante dos olhos os sinônimos da leveza.
Aos poucos, entendi que é na entrelinha que se constrói aquilo que chamam invariavelmente de destino.
Sobre a reinvenção dos dias
Eu me conto nas saudades e, assim, vou me fazendo: do que não pode esperar e me espreita nos dias. Desmonto as horas e me reinvento enquanto a vida já avançou todas as casas, desmascarou as perdas e ganhos. Guardo apenas o que é sol. Já não sobrevivo, é pouco. Me refaço em qualquer felicidade gratuita.
No espelho
Posso saber o seu nome?
Você que habita meu corpo, me confunde a alma, troca os pés para abrir caminhos com as mãos.
Você que me trava a batalha,
Traz força e resposta,
mas distrai os dias para reaprender a andar.
Posso saber o que te move, o que te faz feliz?
Quero saber como chegou até aqui,
como substituiu os dentes do meu sorriso e agora já não quer partir.
O fardo é menor, seu nome é saudade?
Quando foi que você me deixou assim? Anacrônico, quase anárquico, análise tola e desnecessária?
Posso saber o que você pretende?
Aonde mesmo fica o Porto?
Responda,
é preciso içar as velas.
Quando mesmo é que você me convence? A primeira batalha é silêncio. O resto, inspiração?
Você sabe dizer, por favor, quando é que eu me transformei em mim?
Você que habita meu corpo, me confunde a alma, troca os pés para abrir caminhos com as mãos.
Você que me trava a batalha,
Traz força e resposta,
mas distrai os dias para reaprender a andar.
Posso saber o que te move, o que te faz feliz?
Quero saber como chegou até aqui,
como substituiu os dentes do meu sorriso e agora já não quer partir.
O fardo é menor, seu nome é saudade?
Quando foi que você me deixou assim? Anacrônico, quase anárquico, análise tola e desnecessária?
Posso saber o que você pretende?
Aonde mesmo fica o Porto?
Responda,
é preciso içar as velas.
Quando mesmo é que você me convence? A primeira batalha é silêncio. O resto, inspiração?
Você sabe dizer, por favor, quando é que eu me transformei em mim?
sábado, 7 de junho de 2014
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