quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Recesso

O blog ficará sem novas atualizações durante todo o mês de janeiro. Mês que vem volto com novidades.

Agora deixe-me ir que o Rio de Janeiro de espera!

Obrigada a todos que passam por aqui constantemente. Até a volta.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Acenando um tchau

Fico me perguntando por que há tanta gente infeliz neste mundo. Ser triste parece modismo, ser problemático, status. Há sempre um defeito, uma imperfeição. Há sempre uma vírgula fora do lugar, um desespero, um show montado.

As pessoas exigem demais do mundo, delas mesmas, perdem a graça e o sorriso. Elas se fazem infelizes: se irritam com o trânsito, com a demora, com a espera e a saudade. Abrem mão para não sentir falta e se sentem infelizes justamente pela ausência que causaram.

Se faz sol, está muito quente. Se chove, estraga o passeio. As pessoas querem sempre vidas nubladas. São infelizes porque confundem o intenso com o capricho. São infelizes porque escolheram viver assim: na correria, na falta de olhar, no imediato. Gostariam que o mundo funcionasse por meio de lâmpadas mágicas: todo desejo atendido a um estalar de dedos. Gostariam de ser mais magras, altas, ricas ou com o nariz arrebitado.

Mas não, a vida não se realiza com desejos atendidos de imediato e, por isso, as pessoas se ocupam cultivando a infelicidade e não percebem a alegria, na vidraça, acenando um tchau.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre listas de ano novo (ou A felicidade não precisa de burocracia)

Abandonei as resoluções de 'ano seguinte' há tempos. Deixei de lado os planos que não vou cumprir. Cansei de me prometer academia, menos chocolate e diminuir a compulsão por comprar mais livros do que eu consigo ler.

Decidi ser feliz de forma simples, sem ter itens para checar ou caminhos obrigatórios. Não faço listas para não me reduzir e para não ter a quem (ou a o quê) culpar quando as coisas derem errado.

Tenho metas e estratégias, mas não listas. Prefiro não contar até dez. Enumerar resoluções é começar um regime toda segunda-feira para abandoná-lo vinte e quatro horas depois.

Em meus dias, consertei o que deu errado no momento da perda. Fazer listas é adiar as respostas, é jogar pra frente o que temos medo de resolver - e pelo medo, esquecemos as listas no fundo das gavetas.

Não quero adiar nada, não preciso de planos pra mais tarde. Os meus pés ditam o limite dos passos. A felicidade não precisa de burocracia. O caminho não precisa de listas quando o caminhar é prioridade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Samba esquecido

Como é mesmo que a canção aquela dizia? Perdi as palavras exatas, porém tenho ainda os pés meio tontos, o coração trôpego, um frio entre os dedos.

O que aconteceu com os dias? Sobrou o olhar carregado, o castanho nublado, o soluço nas mãos. Sobrou um resto de cor, um resto de tudo, um pedaço de mim. Sobrou um retalho, um retrato, seu rosto enquadrado, as migalhas dos dois. Sobrou um livro emprestado, uma canção esquecida e algumas juras já gastas. Ficou o que eu me esqueci de dizer e o que ninguém perguntou: Aquilo que a gente não quis ou deixou pra depois.

Como é mesmo aquela alegria triste, aquele samba arrastado? Como é mesmo que você me dizia pra não me importar com a multidão? Procuro agora um caminho, um rumo ou estrada. Não espero nada, além da chuva ou da paz de se esquecer certas canções.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A espera sobre a mesa

Todas as noites, eu coloco um prato a mais na mesa pra me convencer de que você vem pro jantar. A que horas você chega? Será que o telefone toca? Olho, assim, de canto de olho, de mãos dadas a qualquer esperança e ele continua lá: mudo e inerte. Quando toca, não me traz notícias boas, apenas um telemarketing insistente e uma chateação enorme.

Eu te espero, a comida esfria. A fome vai embora e o prato sobre a mesa. Você nunca mais apareceu, nunca se explicou. Na calada da noite, juntou seus braços e partiu, assim, pé ante pé, deixando as fotos velhas para trás.

Você vem pro jantar? Eu preparei seu prato preferido e guardei todas as facas, não haverá guerra, não haverá cortes mais profundos que os já feitos. Haverá apenas a nostalgia ao vê-lo sentado, assim, sem me encarar, nem reconhecer.

Eu ainda espero, eu ainda ponho o prato sobre a mesa. Quem sabe você não se cansa e volta. A porta fica destrancada, não precisa bater, apenas volte. E quando voltar, faça a última refeição e vá embora, sem alarde, sem perdas ou pés de lã. Saia pela porta da frente, com os bolsos vazios. Deixe os motivos sobre a mesa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

À um velho amigo

Ei, você que eu não vejo há tempos, me envie uma carta, um sinal de fumaça. Moro ainda no mesmo lugar.
 
Hoje achei uma foto antiga, desbotada e com cinco quilos a menos. Você sorria largo, eu olhava distraída. Os dias eram de paz.

Você falava que eu deveria mostrar as coisas que escrevia, eu achava bobagem. Hoje eu escrevo e você não lê. 
 
A gente põe a culpa na falta de tempo, na cidade grande, no que não se pode explicar, no quão diferentes nos tornamos.

Olho a fotografia: deixamos tudo para depois e agora nos sobra o que já foi.

Por isso eu peço: escreva-me uma carta, um bilhete, diga se você também sente falta. Os dias, cada vez mais longos, escondem o caos em sorrisos cordiais.

domingo, 18 de outubro de 2009

"O pássaro é livre na prisão do ar"

Eu o vi ali, parado. Ele tentava evitar a aproximação dos inimigos e acabou por sufocar cada um daqueles que o amava. Ele olhava o chão e sorria mudo, seco, fingindo não perceber que seu destino escapulira e que já não poderia fazer o tempo caminhar para trás.

Eu o vi queimando todas as certezas e cometendo o erro de refazer as mesmas escolhas ao flertar com o eco de desejos terceirizados. Eu juro que o vi desfazendo os nós, dissolvendo as amarras, mas sem vontade de voar.

Ele queria ler a sorte em uma xícara de café. Ele queria dizer que sente muito, mas na verdade não sente. Ele construíra as trincheiras. Ele asfixiou cada suspiro de futuro. Foi ele quem bateu a porta e deixou a alma tomando chuva.

No fundo, foi ele quem me deu essa raiva que não existe e esta vontade de fazê-lo reagir sem gritos.

(Ana Flávia Alberton, com a velha mania de desenterrar textos de seu blog antigo).